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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Paris, Texas

 

Por Pachá

Desistir de tudo simplesmente por não ter vontade para nada requer determinação e egoísmo homérico, mas isso tem nome e diagnostico conhecido. Travis (Harry Dean Stanton) perdeu os lastros que sustenta o sentido da vida, ao menos para mim, foi essa a sensação as primeiras cenas de Paris, Texas. As vastas paisagens desérticas e quase sem vida na qual é apresentado o personagem é intrigante e desoladora.

O roteiro escrito por Sam Shepard é desenvolvido no modo lento, denso e repleto de perguntas cujas respostas vão estruturar a trajetória de Travis, um sujeito que vaga pelo deserto do Texas. Seu irmão Walt (Dean Stockwell) recebe uma ligação sobre Travis que está sem dar notícias a quatro anos. E a partir dai vamos descobrindo em doses homeopáticas os personagens e seus conflitos. Embora o roteiro tenha o estilo do dramaturgo americano Shepard, mas quem literalmente dá cores ao drama é o alemão Wenders com seu olhar estrangeiro sobre o american dream algo que ele já tinha ensaiado em Alice in the Cities 1974. 


A fotografia de Robby Muller é exuberante, em cores, em composições melancolicamente trabalhadas em uma comunhão extasiante com os personagens, basta ver quando entra em cena Hunter (Hunter Carson) filho de Travis que agora vive com Walt e Anne (Auroe Clément) que torna o conflito de Travis ainda mais complexo, já que o roteiro vai aos pouco montando o quebra cabeça que é a ruptura familiar que colocou, pai, mãe e filho em caminhos opostos. As atuações são impecáveis, não há um só personagem que não tenha profundidade, volume, com destaque para Harry Stanton e Dean Stockwell que protagonizam ótimas cenas, mas o clímax vem nos diálogos de Jane (Nastassja Kinski) que entra em cena após mais de 50 minutos de filme, mas protagoniza umas das DRs mais tocantes e lindas do cinema, quando em uma cabine de peep show, na qual apenas o cliente vê a performance enquanto conversa pelo telefone.

Ao longo da história vemos Travis de poucas palavras, corroído por culpa, raiva ou sabe-se mais o quê, e quando ele reencontra seu filho, Hunter de 7 anos, há um desejo, ainda que disfarçado de transformação que ocorre quando os dois finalmente se acertam como pai e filho, e nessa parceria também há ótimos diálogos e uma interpretação impressionante de Hunter e quando os dois partem juntos para encontrar a mãe, Jane a partir de um pista nada sólida, a relação dos dois cresce.

Paris, Texas é um road movie com várias camadas na qual a principal é a busca de redenção, identidade de um individuo que esqueceu o que é ser um ser social e seu retorno ao convívio social ao mesmo tempo que tenta fechar feridas, que ele sabe que não se fecharão, o desfecho é a prova. 

Paris, Texas é a obra prima de Wenders que enxerga uma América colorida, vasta, triste e irremediavelmente corrompida por valores individuais. Um filme que traz a marca do tempo mas extremamente atual no que tange as relações interpessoais e como estas tratam os conflitos.



terça-feira, 2 de agosto de 2011

Do Fundo do Coração


Por Pachá

Filme de 1982 que sugou fundos de Francis Ford Coppola, os 30 milhões de dólares investidos no filme não se recuperou. Coppola então se desfez de seu estúdio. O filme é um musical, não gosto de musicais, o diferencial é que a trilha sonora original composta inteiramente por Tom Waits é arrebatadora.

O enredo fantasioso de Coppola beira o pueril, mas o filme guarda certa qualidade, nos diálogos rápidos, na fotografia vibrante, de cores vivas e luminosas de Las Vegas.

Hank (Frederic Forrest) é um pão duro vivendo em Las Vegas, o primeiro contraste do filme. Ele mora com Frannie (Teri Garr). Na primeira cena somos apresentados a um casal normal e apaixonados, na iluminada Vegas. Hank reflete, "esse é o problema de Vegas, muita luz, não há mistérios”. Como todo casal eles tem problemas, Frannie quer aproximar sua visão do príncipe encantado a sua realidade, quer viajar conhecer Bora-Bora. Frannie quer viver. Eles discutem. Fatos para uma separação vem a tona e o inevitável acontece, Frannie se vai. E a partir desse ponto a musica de Tom Waits vai preenchendo os desencontros dos dois namorados. Separados, Frannie conhece Ray (Raul Julia) um sonhador como ela, Hank conhece Leila (Nastassja Kinski), que alias em ótima forma.


Hank acha Leila um sonho, mas sua realidade está fincada em Frannie. Ele decide buscar seu amor a maneira americana, no braço e força.

É fácil entender o fracasso de critica e público do filme na época. As interpretações nos induz a crer que nenhum dos dois sofre de fato com a separação, Hank é mulherengo traiu Frennie, esta saiu com Moe (Hanrry D Stanton) o melhor amigo de Hank. A dor no entanto nos chega na cena final. E é no desfecho da maratona de Hank para trazer Frannie de volta para casa que se sustenta todo restante do filme.

Não vi no filme nada que justificasse retumbante fracasso, tão pouco inesquecível ou mesmo genial, como alguns criticos escreveram. No máximo um bom filme que não chega perto dos antecessores, American Graffiti e Grease.

Título Original: 0ne From The Heart
Gênero: Musical
Origem/Ano: EUA/1982
Direção: Francis Ford Coppola