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sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Chaos Walking (mundo em caos)

 
Por Pachá

A premissa da trama é de um mundo onde os sons dos pensamentos, ruídos, são materializados, as vezes em imagens. Estrelado por Tom Holland, em um papel que lembra em muito Peter Parker e da Jedi Daisy Ridley, os dois fazem ótima dupla. E o filme empolga, pelas atuações e uma trama bem redonda e sem muitas pretensões.

Outra ótima presença, é do sempre correto, Mads Mikkelsen no papel do vilão, mas fiquei com a sensação de um trabalho pouco atencioso do roteiro para o personagem, no que diz respeito aos conflitos e arco dramático.


O roteiro tem uma história pregressa bem interessante, já que a trama é sobre a terceira geração de colonos habitando um planeta que altera de forma profunda a comunicação das espécies que nele habita. E o roteiro não esconde o fato de se tratar de um filme de puro entretenimento, arranhando algumas questões como superioridade das mulheres, convivência com outras espécies. E claro, o fim da vida no planeta Terra, ou ao menos, a inviabilidade de proliferação dos sapiens no planeta azul.


A fotografia de Ben Seresin que fotografou o ótimo Planos Quase Perfeitos 1999, cria boas composições aproveitando os cenários de floresta.

O mundo em Caos é uma ficção bem executado, com bastante veracidade interna, é que certamente agradará os fãs do gênero.


domingo, 28 de junho de 2020

Arctic

Por Pachá

O embate com a natureza na maioria das vezes rendem boas histórias, em Arctic do diretor brasileiro Joe Penna tem o mérito de colocar essa luta pela sobrevivência do protagonista, um homem, Mads Mikkelsen, sem recorrer aos manjados processos de flashback, loucura ou coisas do gênero, muito comum nesse tipo de narrativa, que acaba desviando a luta pela sobrevivência, em uma luta para manter a sanidade.

O roteiro é bem enxuto, com escassos diálogos, e sem muitas explicações ou emoções manipuladas na qual um homem, ainda que preso na imensidão de um ambiente inóspito e hostil, tem um certo "conforto", ele tem um abrigo, o avião que, ao que parece precisou fazer um pouso forçado, mas que ficou praticamente intacto nesse processo. O alimento a base de peixe pescado bem ao estilo dos esquimós. Sua rotina é pautada pelo beep do relógio que marca uma atividade, conferir as armadilhas para pesca, deixar o sinal de SOS visível, tentar envio de SOS pelo rádio, alimentação e dormir.



Embora adaptado a esse meio, o homem tem plena consciência de que sua sobrevivência não depende apenas dele, o roteiro deixa essa certeza pela obstinação e a organização desse homem, que compreende ser uma questão de tempo para o resgate chegar, e de fato isso acontece ainda no primeiro ato. Mas esse é o chamado para verdadeira aventura, e de resgatado, ele se transforma em regate.

Mads Mikkelsen consegue impor uma atuação contida, resiliente que por si só já é um diferencial, e a direção segura ancorada no minimalismo assegura uma narrativa bem interessante, diferente dos filmes do gênero, que vão buscar no entretenimento de reações exageradas, lições de vida e artifícios de sobrevivência em histórias pregressas, lembranças da família, a linha condutora da trama, e nesse sentido o personagem de Mads Mikkelsen está acima disto, ou porque já se amparou nelas ou porque não as tem. A cena em que ele encontra a foto da família da mulher, é como se ele já tivesse passado por isso, levantando até a possibilidade de que não é  a primeira vez que ele fica a deriva.

Joe Penna ficou conhecido, e muito, a partir do seu canal do youtube, mysteryGuitarMan no qual disponibiliza seus curtas metragens, que por sinal são muito bem realizados e conduzidos.








sexta-feira, 26 de junho de 2020

Bleeder

Por Pachá

O segundo filme de Winding Refn confirma sua preferência por narrativas na qual a natureza humana é desnudada. Em Bleeder ele aborda o cotidiano de amigos, que tentam construir ou manter relações e os consequentes lastros para suportar o oficio de viver.

Lenny (Mads Mikkelsen) trabalha em uma locadora de filmes, assistir a filmes e falar sobre filmes é seu único assunto, o que dificulta seu approach em Lea (Liv Corfixen). Leo (Kim Bodnia) vive com Louise (Rikke Louise Andersson) que está esperando um filho, e após vários abortos, ela decide que terá essa criança, e essa gravidez mexe como os nervos de Leo, um sujeito frágil emocionalmente. Nesse universo ainda orbitam, Louis (Levino Jensen) irmão de Louise. 


O diretor dinamarquês explora a banalidade do cotidiano em um país que não esconde a xenofobia e racismo, há pelo menos duas cenas com esse teor. Leo ao presenciar uma cena de tiro em uma boate, decide que precisa de uma arma, e como cantava Bezerra, o sujeito com uma arma na mão é um bicho feroz.

Os personagens parecem desprovidos de ambições ou mesmo maiores expectativas perante a vida, uma sensação que permeava os anos 80, e creio que a grande referência é Perdidos no Paraíso 1983, de Jim Jarmusch. O enfrentamento de relações e respectivos compromissos, sejam elas a longo prazo ou um inicio de namoro, é um grande desafio para os personagens, Lenny é inseguro, quer convidar Lea para uma sessão de cinema, mas não sabe como iniciar uma conversa, e as tentativas de xaveco com Lea rendem boas passagens, nas quais Mads Mikkelsen e Liv Corfixen fazem uma boa dupla. Kim Bodnia como um sociopata em transição para psicopatia é o grande arco dramático da trama, já que os demais personagens são rasos.

Não se trata aqui de algo visceral ou mesmo com grandes propriedades, mas o filme é bem filmado, com uma montagem que dá um bom ritmo e movimento de câmeras em nítido esforço para sair do lugar comum, e em minha percepção funciona.





segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O amante da Rainha

Por Pachá
O filme de Nikolaj Arcel é um bom retrato (ainda que pano de fundo) do processo de secularização de uma sociedade, no caso a Dinamarca. Ancorado em fatos históricos quando em 1759 a princesa Caroline Matilde, então com 15 anos, se casa com Rei Dinamarquês Christian VII, um sujeito excêntrico e por demais infantlizado e juntamente com  médico da corte plantaram idéias que moldaram a Dinamarca ao longo do séc. XVIII. O período em questão era efervescente em toda Europa que sentia os ventos da mudança na nova corrente de pensamento, o Iluminismo. Até então o mundo (europeu ocidental) era dominando pelo realismo aristotélico-tomista onde o conhecimento era centrado no mundo metafísico das essências. Ainda no séc, XVII Descartes, Locke, Spinoza para citar alguns haviam desencadeado nova ordem na inflexão de pensamentos, abrindo largas vias para o empirismo e o normalismo. Vale ressaltar que a filosofia natural (física e matemática) de Galileu, Descartes e Newton puseram "ordem" no universo, constatando através da observação regularidade dos fenômenos, que através de métodos adequados (mais tarde método científicos) chegariam a essa ordem natural. Esta nova visão do mundo, pelas lentes da ciência são o pressuposto para o Iluminismo no séc. XVIII onde prevalecia a imanência do ser, ou seja, toda qualquer explicação de fenômenos não mais era procurando  no divino e sim no EU, físico e terreno. A Razão devia prevalecer sobre o divino.

Caroline que nos documentos históricos não é apontada como bela, e sim de personalidade forte, inteligente e que de alguma forma atraia atenção dos homens, contrasta com beleza da atriz Alicia Vikander, de olhar meigo, tristonho até, mas que imprime grande força ao personagem, muito embora não percebemos a tal personalidade marcante nas nítidas cenas em que há o esforço para tal. Mas acabam encantando justamente pelo oposto, ar resignado, tédio e deslocamento que comungam com olhar e expressão de Vikander. Após cumprido suas obrigações de rainha, ou seja, gerado um rebento para o trono, já que a Dinamarca é uma das monarquias mais antiga do mundo. Nascido Frederik VI, Caroline não vê motivo para ter o Rei em sua cama. Seu casamento como tantos no antigo regime, nada tinha a ver com sentimentos, e sim político-econômico e analisar insatisfação de Caroline por essa ótica é anacronismo. 

Porém com chegada a corte do médico Johann Struensee (Mads Mikkelsen) como médico particular do Rei vai mudar vida de Caroline e de um pais. Johann é um médico do povo profundamente imbuído das idéias iluministas que via na propriedade da terra e vassalagem (sistema feudal), e a fé cega na religião, entraves para avanço da Dinamarca enquanto reino prospero a exemplo da Inglaterra e França que estavam há muito em processo de cisão com antigo regime. Ele ganha notoriedade quando salva o pequeno Frederik VI da varíola, e ao que responde quando é creditado a Deus a cura do bebê, [...] Deus não teve nada a ver com isso... afirmando um dos princípios caros ao Iluminismo, de que a razão deve ser o único critério válido de acordo com a própria vontade divina. 

Caroline não tarda a encontrar em Johann o que lhe falta no casamento, livros, arte.  A cena em que Caroline encontra livro de Rousseau escondido na estante de Johann é o iniciou da secreta paixão. E passa a recebe-lo em seu quarto as escondidas. Com as melhores intenções, e delas o caminho para o inferno está pavimentado, Caroline e Johann passam a exercer forte influencia em Christian com intuito de por em prática idéias liberais do iluminismo em forma de lei e decretos para tirar a Dinamarca do sistema feudal. A nobreza e o clero, não viram nessas boas intenções nada benefico quando estava em jogo o poder da igreja e as terras dos nobres.  A  Dinamarca que é luterana desde o séc. XVI, estava tentando se erguer de sucessivas guerras civis ao longo do séc. XVII após adotar a igreja luterana como religião oficial. O auge do poder do triângulo "amoroso" se dá com a dissolução do conselho, e um novo gabinete para assuntos do pais presidindo pelo rei e Johann.


O filme encanta pela historia em si e mesmo porque o romance histórico que permeia o filme nada tem de meloso ou hollywoodiano, e nesse ponto há grande mérito de Arcel que já havia dado mostra do grande roteirista que é em O homem que não amava as mulheres (sueco), e com Amante da rainha mostra, ao adaptar obra "Princesa de Sangue" de Bodil Steensen-Leth, que também sabe conduzir historias. As atuações são mais que corretas,  Alicia Vikander como descrito linhas acima, carismática e legante. Mads como sempre esbanjando versatilidade e emoção em suas interpretações, mesmo que as vezes pareça apático e no automático, mas tenho grande admiração por esse ator. O mesmo vale para Mikkel Boe como o louco rei Christian VII que é a grande interpretação do longa. Os demais atores preenchem a trama corretamente.

Tecnicamente o filme é bem fotografado, embora algumas cenas diurnas me pareceu muito claras em luz chapada, com pouco contraste. Mas compensado nas internas, onde há grande imersão no universo da nobreza e seus rituais, mesmo que comandado por um rei louco. Por outro lado peca ao mostrar pouco ou nada das ruas e povo da Dinamarca absolutista, ficando o discurso apenas por parte dos nobres. Mas ai acho que se trata  budget que certamente não foi dos maiores. Mas que não fere beleza do filme.


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Valhalla Rising


Por Pachá

Filme de 2009, no Brasil com o título de guerreiro silencioso, do diretor Nicolas Widing Refn. Filme intimista onde o diretor dá uma visão bem interessante de mitologia Nórdica, a respeito de Valhalla, lugar para onde são enviados os guerreiros após sucumbir em batalha. E um embate religioso entre duas culturas, ainda que sutil, a Nórdica e a Cristã. O filme tem poucos diálogos, um visual bem dark e tem o mérito de não usar qualquer clichê do gênero. E narra a história de um misterioso guerreiro, one Eye, de extrema selvageria, que após conseguir se libertar de uma prisão parte para cumprir seu destino.

A primeira parte, tem a relação de poder entre os vários clãs que disputam território e poder sobre os demais. One eye é uma espécie de escravo de guerra, que pelo seu estilo de combate, é poupado, porém é usado como lutador, um cão de briga. Não há qualquer arco dramático de transformação dos personagens, dos quais pouco se sabe, e nisso também há certa coerência, já que a organização social desses clãs parecem ser bem primitivas, não há mulheres, a família, o alicerce para a cultura Viking, também não há referências. A historiográfica dos povos Viking identifica três classes, Thrals compostos por servos e escravos, da qual certamente está one eye. Os Jarls que são os camponeses e os Karls que representa a nobreza.



Após ser libertado por um cavaleiro cristão, one eye aceita o convite para uma cruzada, certamente deve ser a primeira, séc. XI, e nesse ponto o roteiro pega como elemento a provável transição que a Europa e países baixos estavam passando, religiões pagãs para o cristianismo.

O filme é violento, com cenas gore, e a fotografia de Morten Søborg ajuda a criar esse ambiente de hostilidade, do desconhecido com color grading quase monocromático e bastante contraste. Os plano abertos das paisagens nórdicas também contribui para medo constante diante da vastidão de terras que escondem perigos e armadilhas. 

One eye se junta com um grupo rumo ao desconhecido. E nessa segunda metade o filme ganha ares psicodélicos, me deixando com a impressão de que eles estão todos mortos, e vangando pelo Valhalla, e nesse sentido o roteiro é bem estruturado pois dá margem para algumas interpretações, tais como, assim como acham que Pedro Alváres Cabral chegou a América por "engano" os Vikings podem ter feito jornada parecida, só que esses estavam perdidos mesmo.

No elenco temos o já conhecido Mads Mikkelsen em uma interpretação que não dá mostra de seu talento, mas cumpre bem seu papel e é bem convincente, lembrando que ele fez o Le Chifre de Cassino Royale e também como protagonista do bom filme After Wedding de 2006, neste ele tem mais liberdade dramática . O diretor, Nicolas Winding, dinamarquês de 30 anos tem em seu currículo a trilogia Pusher.