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sábado, 14 de maio de 2011

La Ragazza con la Valigia 1961


Por Pachá
Me tornei fã de Zurlini quando assisti ao excepcional O Deserto dos Tártaros. O esmero de Zurlini no manejo da câmera para captar sentimentos, seja estes desventuras amorosas ou de ideais, é brilhante. Em La Ragazza con La Valigia de 1961, no Brasil com tradução ao pé da letra, A moça com a valise, narra a descoberta e a dor do primeiro amor. Lorenzo Feinard (Jacques Perrin) é um adolescente órfão de mãe, criado pela rígida tia e pai ausente. Embora seja de uma família abastada de Parma, o rebento vive à sombra de seu irmão mais velho, um playboy irresponsável, que engana uma cantora de boate com promessa de gravação de discos, shows e fama.

A jovem Aida (Cláudia Cardinale) se recusa a ser insultada com impunidade, e parte para encontrar o ragazzo que a enganou. E chega à porta da mansão dos Feinard. O irmão mais velho incube o mais novo, Lorenzo a se livrar da tonta, segundo seu julgamento. Mas ao ficar frente a frente com a ingênua moça e sua valise, Lorenzo sente não só a força dos hormônios, mas o desabrochar de um sentimento até então escondido. E para garantir que a verá novamente, mente ao dizer que conhece o sujeito que ela está procurando, sem dizer que o mesmo é seu irmão.

A partir daí Zurlini trabalha seus diálogos e planos de câmera para desenvolver o casto amor de Lorenzo por Aida. Como o país religioso que é a Itália, a igreja exerce grande influencia em sua população, basta ver que o tutor de Lorenzo, mesmo na década de 60, é um padre. O que faz com que Lorenzo fique dividido entre os ensinamentos de seu tutor, e o pecado de exteriorizar um sentimento que o faz cometer atos que podem causar grande choque em sua rica família.

Aida conhece os sentimentos que Lorenzo nutre por ela e tira proveito dele não por maldade, e sim por necessidade, mesmo que carregado de ingenuidade. Ela passa a aceitar presentes dele sem questionar como ele conseguiu recursos para tal. E logo chega o momento em que sua mentira se torna insustentável e recorre à única pessoa em que ele confia, seu tutor. Mas esse sabe que a moça é uma perdida, pois já tem filho sem pai e que seu sustento pela prostituição é inevitável.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Deserto dos Tártaros 1976

Por Pachá
O Deserto dos Tártaros (Il deserto dei Tartari) de 1976 é um filme intrigante, pois a mensagem passada pelo diretor, Valério Zurlini é subliminar. Inspirado no livro, “O Deserto dos Tártaros do escritor Dino Buzzati publicado em 1940. 

O filme faz um paralelo entre a inutilidade do poder e a maneira como aceitamos a passagem do tempo, e como esse age sobre nossas vidas, e partindo dessa premissa Zurlini narra de forma poética a saga de um oficial, Drogo (Jacques Perrin), do império austríaco que em 1907 é enviado para um distante forte de guarnição de fronteira, chamado forte Bastiani, lugar onde o tédio e a doença estão a espreita, e se esses não o levar a convalescência a loucura o fará, é ai que entra a ação do tempo, a passagem dele e seus efeitos, principalmente em espíritos arredios, sedentos de glórias e honras, que no caso de Drogo nos seus tenros 20 anos clama por tal. 

Em Bastiani Drogo se vê consumido por uma rotina que o deixa cada vez distante de se tornar um oficial de verdade, forjado sob as honras da guerra, em Bastiani o inimigo é invisível, e sua espera nos faz esquecer a finitude das coisas, como se fôssemos imortais. As locações é um deleite a parte, realizadas em construções milenares do Irã, a fotografia e movimentos de câmera capta a solidão e melancolia contida nesse mundo de rochas, areia e nevoeiro tudo minuciosamente trabalhado por Zurlini, que levou cinco anos para finalizar o filme. O elenco que conta com Giuliano Gemma, no papel do major com intenso senso de dever, Max Von Sydow, na farda do comandante Hortiz, Fernando Rey em uma interpretação curiosa. E por menor que sejam as participações do elenco escalado, Zurlini tirou deles interpretações impecáveis, convincentes que quase nos faz esquecer que o filme tem mais de duas horas e meia de duração, claro que para quem não está familiarizado com este tipo de narrativa, poética, pode parecer maçante, mas a experiência é compensadora, pois Zurlini não é dado a voyeurismo, e suas imagens tem significado, cor, e compõe com imenso significado o onirismo de seu estilo de filmar . O deserto dos Tártaros pode sem exagero algum a ser comparado a esperando Godot de Beckett.