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quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Duna 2021

 
Por Pachá

O filme tão aguardado pelos fãs do livro e gênero sci- fi, em sua primeira parte, como vemos logo nos créditos iniciais, cobre metade do livro I, Duna, da saga escrita por Frank Hebert que é composta por 6 livros, todos com mais de 500 páginas.

As escolhas de Villeneuve para transformar a narrativa de Duna em imagens, ao mesmo tempo palatável para quem não conhece o universo do livro e agradar aos fãs, justifica os pontos obliterados da história original ou mesmo a ressignificação de personagens, mas ainda sim não está isento de criticas.

A comparação com o filme dos anos 80 dirigido por Lynch, em minha percepção, é inevitável ainda que Lynch tenha renegado a obra. É óbvio que o aspecto visual, proporcionado pelo CGI, deixa o filme de 2021 em vantagem, fato consumado. As naves de Duna 2021 lembram em muito a nave de Arrival 2016. O figurino não me chamou atenção, diferente do filme de 84 no qual as indumentárias acentuavam  a diferença entre as casas, Harkonnen e Atreídes, ou mesmo da "espada" do imperador, os temíveis Sardaukar, uma espécie de espartanos, e ai até a forma de falar e expressão dos sardaukanos, no filme Villeneuve, lembra os 300 de Snyder.

Analisando os personagens, o duque Leto e lady Jessica, são os que mais sofreram, seja pela ressignificação ou atuação. Isaac como Duke Leto fica aquém da interpretação de Jurgen Pruchnow e do próprio personagem do livro. Francesca Annis leva certa vantagem em relação a Rebecca Ferguson, mas creio que na segunda parte, esta deve ter um arco dramático mais relevante, já que nessa primeira parte sua personagem está um tanto distante do que é descrito no livro e principalmente de sua importância nas intrigas palacianas.

Timothée como Paul Atreíde foi uma escolha bem acertada, comunga muito bem com o personagem do livro, juventude, tormento, vigor. Essa primeira parte é muito bem centrada na apresentação dos personagens, principalmente Paul Atreídes. O mesmo não se pode dizer dos personagens Harkonnen, Raban the beast interpretado por Dave Bautista não impõe medo como sugere o personagem do livro. Stellan como barão Harkonnen não tem muitas aparições nessa primeira parte, mas garante grande presença quando em cena. E acredito que a segunda parte será uma apresentação da casa Harkonnen e os planos do barão para usurpar o trono imperial, deixando como sucessor da casa Harkonnen, seu sobrinho, Feyd-Rautha Harkonnen vivido por Sting no filme de 84. A Freme Chani vivida por Zendaya tem uma discreta aparição, e esta também deve ter um arco dramático mais desenvolvido na segunda parte.


Um ponto muito sacrificado na narrativa proposta por Villeneuve foi as intrigas feudais, dado que a saga dos livros de Herbert, como todo escritor de épicos sci-fi pós guerra, tinha como lastro a idade média, e esta, está imersa em intrigas, relações de poder entre casas, reis, e religião. Isso tudo é muito fácil de se observar em Duna, assim como culto a personalidade, do messias, do predestinado. E é desse meio que vem o tormento de Paul que teme uma guerra galática pelo poder imperial desencadeada pelo seu "renascimento" como Kwisatz Haderach, que significa "aquele que pode estar em muitos lugares ao mesmo tempo" um messias planejado geneticamente ao longo de várias linhagens pelas Benne Gesserit e que se daria entre um casamento de um Harkonnen e uma Atreíde. E creio que isso será trabalhado na segunda parte.

A paleta de cor, bege/amarelo predominante, de Dune oferece pouco contraste, e creio ser proposital, pois quando algo quebra esse ton, causa um bom impacto, como uma pele preta, o vermelho sangue.  O diretor de fotografia, Greig Fraser é adepto do menos é mais, movimento de câmeras contidos, composição e enquadramentos com esmero e pouco contrastes de iluminação, nada que chame muito atenção como por exemplo a fotografia 84 de Freddie Francis (1917-2007) ou mesmo de Storaro para mini série de 2000.

Um ponto que me decepcionou bastante foram as armaduras, parecem mesmo da idade média, principalmente dos Atreídes, são feias e transmitem a sensação de engessamento.


É sabido para fãs, que o Jihad Butleriano derrubou o deus-máquina, e implantou o lema paradigma de que "O homem não pode ser substituído" e por esse fato, histórico na trama de Herbert, que não há humanóides, IAs, ou mesmo computadores, e claro no centro dessa revolução religiosa estão as Benne Gesserit.

Duna 84

Duna 2021

Os demais personagens, Fremens, acredito, serão mais aprofundados na segunda parte, caso de Javier Barden como Stilgar.

Dado a complexidade de transposição do livro para tela, Duna 2021 cumpre bem esse papel, e acredito que não decepcionará os fãs, mas ainda sim deixará um quê de poderia ser melhor, resta saber se a segunda parte vai ousar, ou será burocrática no sentido de atender fãs e leigos do universo Duna. 

Em uma analogia futebolística, Duna é aquela partida com placar 0 x 0, mas com alguns lances bonitos.


sábado, 3 de outubro de 2020

Blade Runner 2049

 

Por Pachá

A continuação do cult movie Blade Runner de 1982 dividiu opiniões, uns acharam a trama conduzida por Villeneuve insossa e com atuações no modo automático, por outro lado há aqueles que acham o filme uma obra prima de ficção do séc. XXI. Villeneuve caiu nas graças dos grandes estúdios por ser um diretor versátil, e basta uma olhada com alguma atenção em sua filmografia para perceber que ele transita com muita facilidade em vários gêneros, do experimental, policial, documental e ficção, e neste ultimo gênero, Arrival é um bom exemplo. E um detalhe muito importante em projetos dessa envergadura, é a gross margin, ou seja, o quanto se gastou e quanto se arrecadou com o filme, e Arrival custou por volta de 47 milhões de USD, e só nos Estados Unidos arrecadou mais de 100 milhões e somando com a bilheteria total, o filme arrecadou mais de 200 milhões. E isso faz a alegria de qualquer estúdio.

Blade Runner 2049 chegou as telas com 2h44min de duração, tanto o produtor executivo, Ridely Scott como diretor, Villeneuve dizem que o ritmo e duração são os fatores para a bilheteria decepcionante, Ridley disse que o filme poderia ter 30min a menos. Em minha percepção esses fatores não fere a trama, e sim as atuações, não que sejam ruins, mas também não tem a mesma empatia do filme de 1982 quando comparamos cada personagem. Ryan Gosling convence como um "pele falsa" até demais, porém é difícil criar qualquer empatia pelo personagem, cujo roteiro deixa claro que qualquer emoção deve ser repelida, quase nos levando a crer que há certo orgulho ou resignação em ser um replicante, e creio que esse é o único vestígio da máxima, "more human than human". Os antagonistas, centradas na figura de Luv (Sylvia Hoeks) que mais parece uma versão atualizada de T-X (a exterminatrix vivida por Kristina Loken) e Wallace (Jared Leto, inicialmente o papel era de David Bowie mas esse faleceu antes das filmagens) que mais parece um gângster do que um empresário criador de "anjos", e que fica muito distante de seu antecessor, Tyrrel vivido por Joe Turkel. A cena em que vemos o "nascimento de um anjo" e posteriormente tem seu ventre aberto por Wallace com um bisturi, dá mostra da forçação de barra para criar um super vilão. E como se isso não bastasse ainda colocam a fala, "você não sabe o que é dor Deckard, fora da Terra eu lhe mostrarei". E ambos, Luv e Wallace estão bem abaixo de Roy Batty vivido por Rutger Hauer.  A trama na qual o único objetivo é encontrar o milagre, uma criança concebida por uma replicante, Rachel (Sean Young), o falcão maltês mas com poucas camadas e eventos poucos criativos com uma cortina de fumaça para escamotear esse objetivo, e tímidas cenas de ação amplifica ainda mais a sensação de falta de ritmo e duração dilatada.


Segundo o IMDB Ridley Scott seria o diretor, mas o cronograma conflitava com Alien:  Convenant e há rumores de que Christopher Nolan foi cotado para dirigir Blade Runner 2049. 

Blade Runner 2049 não é um filme ruim, tem uma fotografia exuberante com composições e enquadramentos com esmero técnico de Roger Deakins, um trabalho de arte e design de produção igualmente poderoso, muito embora não há muitas cenas de ruas e bares, etc. como há no filme de 1982. Possui uma trama bem encadeada, bem ao estilo policial clássico, que agrada ao publico blockbusters mas que para o público mais atento e fãs do filme de 1982, se torna um filme quase bom. E Villeneuve sabia, e falou em entrevista, que estava ciente da pressão que se instalaria em seus ombros para tocar esse projeto. Primeiro pela presença de Ridley Scott no set e depois dos fãs do filme de 1982. 

O roteiro parte do final aberto do filme de 1982, cuja as perguntas eram; o que seria dos replicantes e do próprio protagonista, Deckard? O tal blackout que é citado pelo arquivologista quando K vai buscar informação de Rachel deixa tudo ainda mais intrigante e incógnito, mas essas e outras questões se tornam secundárias quando a questão gritante é, ser ou não filho de alguém, ou seja, ser um ser nascido e não fabricado, e a fala de K quando diz para Joshi (Robin Wright) "eu nunca aposentei nada nascido" deixa claro o conflito que move a trama, a humanização dos replicantes a partir do fato que Rachel uma replicante ter concebido o milagre, dado a luz a uma criança e também por ter recebido o cerimonial de enterro, o mais antigo tratamento que confere aos humanos a condição de humano em seu dilema diante da finitude, a morte. 

Minha percepção final foi que blade runner 2049 dialoga com um público atual, que necessariamente não precisa conhecer o universo do filme de 1982, e para quem conhece desfruta melhor as questões filosóficas ainda que diante de cenas que se estendem com pouco ou nenhum arco dramático, personagens pouco carismáticos em um filme essencialmente de detetive, neo noir que assim como primeiro foi pouco rentável no que diz respeito a sucesso de bilheteria e logo adiante alçado a filme cult, resta saber se o mesmo acontecerá com 2049, vamos esperar e ver como ele envelhece ou se será "aposentado".


sábado, 29 de agosto de 2020

Incendies

 

Por Pachá

O passado as vezes ou para algumas pessoas, merece ficar enterrado na mais pura convicção de que a ignorância (o não saber) guarda em si alguma felicidade ou mesmo paz de espírito. Para outras pessoas o passado é uma pesada e larga chapa de aço que comprime o peito, tira o sono, compromete a sanidade e faz do presente um pesadelo e do futuro uma incredulidade imensurável. Para essas pessoas, e ai se encontra Nawal Marwan (Lubna Azabal), esse passado precisa ser expelido como pus de uma virulenta ferida com a esperança de que a regeneração proporcione um novo e saudável tecido.

Os gêmeos, Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Maxim Gaudette) estão as voltas com o testamento de sua mãe Nawal que acaba de falecer e como ultimo desejo, deixa algumas instruções para os filhos; encontrar o pai, a quem eles acreditavam que estava morto, e o irmão, do qual eles nunca ouviram uma palavra se quer de sua mãe. A partir dai, os gêmeos ficam divididos, Jeanne está decidida a realizar o desejo da mãe, Simon acha tudo um despaupério, com pensamento cartesiano, morreu acabou. Acontece que para um funeral normal, como quer Simon, sua mãe deixou claro que é preciso cumprir essas promessas, do contrário ela quer que seja enterrada, nua e de bruços, com a cara para o chão, sem lápide e sem epitáfio. A principio ao espectador isso é colocado como uma excentricidade, e ai reside a maestria do roteiro, toda a jornada dos irmãos, primeiramente Jeanne, é para não só entender, e se não justificar, ao menos explicar o último desejo da mãe, mas principalmente desenterrar essa mãe que os filhos nunca conheceram.

O segundo longa de ficção de Villeneuve é de uma precisão, entre a ficção e a realidade, que não deixa dúvidas quanto ao fato de estarmos diante de uma obra prima. Seus trabalhos anteriores, REW FFWD 1994 30min, é um doc. experimental com narrativa de ficção cientifica, lembra muito La Jetee 1962, e narra as lembranças de um fotografo e seus registros na Jamaica. Cosmos 1996 , um longa com vários diretores, também tem estratégia experimental, e uma critica ao mundo do video clipe sensacional. Em 32 de agosto na Terra 1998 e Malestron 2000, Villeneuve aborda os temas mais existenciais amparadas em perdas ou catástrofe pessoais. Em Incendies é possível enxergar esses tons, do documentário, da fragilidade humana diante da vida. E por essa razão, embora não ache a filmografia de Villeneuve regular, é inegável sua versatilidade, que vai do Doc ao sci-fi blockbuster. 

As atuações são bem conduzidas, embora Lubna esteja no epicentro dos eventos, não há aquela atuação arrebatadora, e sim uma harmonia com os demais personagens, nos quais os conflitos são bem delineados com uma edição que emprega ritmo e cadência dos eventos com uma sincronia perfeita. A fotografia tem a pegada do documentário, porém se valendo das paisagens e culturas orientais.


magnetlink incendies 2010

Legendas Ptbr

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O Homem Duplicado


Por Pachá

A adaptação do conto de Saramago pelo diretor canadense Denis Villeneuve é uma das tantas felicidades do encontro entre literatura e cinema. A trama tecida pelo roteiro é bem fiel ao conto, não literalmente falando, mais sim pela forma como soube captar a atmosfera caótica do personagem, Adam e Anthony ambos vividos por Jake Gyllenhal.

A interpretação de Gyllenhal é irretocável, e o entrosamento com o diretor foi tão feliz, que no mesmo ano ainda rodaram os suspeitos, ótimo thriller. 

A trama se dá pela forma psicótica com que o personagem arquiteta para fugir dos olhares da esposa e levar uma vida dupla para esconder a infidelidade. E a forma com que a figura da mulher é representada pela aranha, onipotente e onipresente, é bem construído pela trama a ponto de convencer o telespectador a existência de um duplo.

No elenco ainda tem a gatinha, Melanie Laurent que ficou conhecido em bastardos inglórios e também Sarah Gadon.

Quem assina a fotografia é Nicolas Bolduc que já vem de parcerias anteriores com Denis Villeneuve, ele também fez a fotografia de Next Floor de 2008. A fotografia em O Homem Duplicado tem bom equilíbrio de contraste na maioria das cenas, com tons puxado para o amarelo que aprofunda a sensação caótica da trama. E a medida que a teia vai se desfazendo a fotografia ganha nitidez e sobriedade de cores e contraste mais marcado.

Creio que esse filme juntamente com os suspeitos definiram a carreira de Villeneuve que mais tarde dirigiu o ótimo Sicário. E não a toa o cara vai dirigir Blade Runner 2049.