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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Titane

 
Por Pachá

Agraciado com a Palma de Ouro em Cannes 2021 e o escolhido para representar a França no Oscar, Titane tem a mesma premissa do filme anterior, RAW, pauta feminina centrada em como a sociedade vê a mulher, ou seja, como um objeto, posto essa premissa, ao ser mulher é dado cometer atos que fariam a Terra estremecer. 

Desde as primeiras cenas, quando Alexia (Agathe Rousselle) ainda é uma criança a diretora tenta passar a idéia de privação, de conflito pelo espaço em um mundo predominante masculino. Alexia cresce e com ela uma pulsão de morte diante do mundo testosterona, e por ironia, ela é arrastada para esse universo e precisa assumir uma metamorfose a contra gosto, assim como as convenções patriarcal impõe as mulheres o conflito diário. A cena de Vincent (Vincent Lindon) se injetando de anabolizante são emblemáticas nesse sentido, e por outro lado uma manutenção insustentável, quando é mostrado que mesmo os mais "brabos" não conseguem manter essa postura viril, e que as vezes isso é só uma fachada, e o roteiro expõe essa falha na manutenção dessa virilidade.


Agathe Russelle que é quase uma estreante, tem poucas falas, mas grande expressão facial e corporal. Ela traz no peito uma frase de Bukowski, "o amor é um cão dos infernos" e ao final, a mensagem é uma outra frese, de uma música, All you need is love. A percepção é que todos os personagem tem essa carência, de querer ser amado, e que no caso de Alexia toda tentativa de ser amada, mas do jeito dela, desencadeia atos rancorosos.

Titane é um filme forte, o terror contemporâneo, quando escancara os instintos mais animalescos nos lembrando, que o diferente nem sempre é estranho e portanto uma ameaça, mas para os sapiens reina máxima Freudiana, todo estranho é um inimigo.



Legendas PtBr

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Dobermann

 
Por Pachá

O filme francês seguiu a tendência dos anos 90, talvez iniciada com "Os Bons Companheiros" de Scorcese, seguido pelos filmes de Tarantino, "Cães de Aluguel" e "Pulp Fiction", no qual reina personagens excêntricos, anti heróis e uma quebra do moralismo que sempre persegue os filmes policiais.

Dobreman (Vicent Cassel) é um ladrão de bancos ousado, rouba pela emoção, ao menos o roteiro deixa margem para isso. Sua gangue igualmente parece não ter muito apego pelo dinheiro que tira dos bancos. Em seu encalço está o detetive Souveur Cristini (Tchéky Karo) desprovido de qualquer código moral e ético para pegar a gangue. 

O roteiro é baseado no HQ de mesmo nome do escritor Joel Houssin que também assina o roteiro. Creio que esse HQ nunca foi publicado no Brasil, ao menos a pesquisa que fiz não econtrei nada. Embora sem muito alarde comercial, Dobermann ganhou o status de cult e atraiu produtores americanos que tentaram uma continuação em 2011 com ninguém menos do que Nicolas Cage no papel de Dobermann. E basta lembrar que em 1997 Cage e Travolta estreavam "A outra Face" e quando colocando os personagens lado a lado a lado, o que não falta é semelhanças.


Um ponto muito legal do filme é a fotografia e os movimentos de câmera e divisão de tela, que veio a ser muito utilizado por Guy Riche no ano seguinte com Lock, stock and two smoking barrels Gun. Essa estética, com visual punk, super armas, vilões com carisma de astros pop e vilões sádicos é muito bem trabalhado pela direção, roteiro e arte, muito embora eu não curta a parte meio cômica, na qual os policias são retrados pelo extremo, ou sádicos ou idiotas completos.

As atuações são exageradas, mas justificada pela narrativa e proposta do roteiro. Embora Cassel seja o protagonista, quem rouba a cena mesmo é Tcheky Karyo. E claro o colirio, Mônica Bellucci não pela atuação em si, e sim pela presença de uma beleza selvagem no papel da cigana Nathalie, surda e muda. Outro que tem uma particapação interessante e responsável pela polêmica cena que talvez tenha colocado o diretros Jan Kounen na geladeira, é Romain Duris que protagoniza a cena em que limpa a bunda com um exemplar da revista cahiers du cinema.

Em minha percepção Dobermann não envelheceu muito bem, não senti a mesma empolgação quando da primeira vez em que assisti. E quando comparado aos filmes do periodo que tem a mesma proposta, e citados acima, essa percepção fica ainda mais evidente. Empolga ao final, principalmente na cena do confronto final, entre Dobermann e Cristini. 


domingo, 20 de setembro de 2020

Man Bites Dog

Por Pachá

Uma equipe de filmagem tenta captar o cotidiano de um serial killer. Com estratégia de abordagem documental, Rémy e sua equipe tem em Ben (Benoit Poelvoorde) objeto de interesse, mas no meio do processo a equipe se aproxima do objeto de  pesquisa e passa a ser co autor dos atos de Ben, e o que se segue é uma hilariante comédia de humor negro na qual é escancarado o machismo, homofobia, xenofobismo e claro, mortes, muitas mortes e a banalização do mal.

Realizado em 1992, o filme retrata a fixação por armas, pela morte. E como o serial killer Ben acredita que está realizando algum tipo de arte com os seguidos assassinatos, há também um olhar do que é fazer cinema, já que há grandes diálogos entre personagens e equipe sobre o ato de fazer cinema. A cena em que duas equipes de filmagem se encontram, e uma acaba levando vantagem quando Ben descobre que o equipamento do rival é de TV, é tão engraçada quanto trágica, já que ele mata toda a equipe de TV, bem como a cena na qual Ben persegue uma vítima, o operador de som direto é morto, e logo assumido por Rémy, no mais perfeito  estilo the show must go on.


A atuação de Benoit Poelvoorde é sem dúvida o ponto alto do filme, ele encarna o perfeito e mais clichê dos psicopatas dos filmes de assassinos. Ele é de certa forma erudito, aprecia música clássica, tem especial gosto pelos filmes noir e escreve poesias além de ser muito apegado a família. E como acredita que em seus crimes, bem ao estilo Crime e Castigo, onde pode matar e ferir por se achar superior aos outros, Ben não se importa com livre arbítrio, ou seja, ignora que possa sofrer do mesmo tratamento, e até somos levado acreditar que nada pode lhe acontecer, já que ele é implacável e possuidor de inabalável senso de confiança.

O filme é um paródia divertida sobre o gênero policial e agrada pela forma com que se desenvolve a relação entre equipe e personagens em um meta filme que mostra o amor pelo cinema e ao mesmo tempo uma critica.



domingo, 6 de setembro de 2020

L'amant d'un jour (O Amante de Um Dia)

 

Por Pachá

Philippe Garrel é desses diretores que acredita no amor como um dos lastros fundamentais da condição humana, e esse amor não necessariamente pode se materializar nas relações entre duas pessoas, mas também na própria produção humana, e a arte é uma delas, o cinema mais especificamente, assim como o conhecimento nos apaixona e por ele até nos sacrificamos. Em amante por um dia, Garrel coloca esse amor, nada altruísta, ao contrário, puramente egoísta, no estilo de  vida de Ariane (Louise Chevillotte), ainda que esteja apaixonada por Gilles (Eric Caravaca), ela não abre mão de seu estilo de vida, amores fugazes por puro prazer.

A abertura do filme vemos uma mulher, Jeanne (Esther Garrel, filha do diretor) em pleno sofrimento pelo término do relacionamento. Ela então retorna para casa do Pai, Gilles e a partir dai duas histórias de amor se cruzam, uma que acabou e outra que está em seu início, Gilles e Ariane estão morando juntos há três meses. 


O filme se utiliza de uma narração em off, antecipando ou explicando fatos, algo que confesso é redundante e as vazes irritante. Entre Ariane e Jeanne nasce certa cumplicidade, já que tem a mesma idade, e os pequenos segredos que as duas passam a guardar, são os prenúncios das consequências dos caminho e ciclo viciosos que os amantes estão sujeito em suas tentativas de moldar as respectivas histórias amor. Jeanne em sua dor, tenta suicídio, em uma cena se a menor veracidade, mas é impedida por Ariane. Jeanne descobre que a namorada do pai pousa para revistas de nudez. 

A fotografia em preto e branco, abraça bem os dramas amorosos, sem apelar para os exageros ou açucaradas cenas que o tema parece sempre recorrer, e se ampara nos limites dos conflitos amorosos, a infidelidade, a perda, o recomeço e a certeza de que após essas grandes fissuras deixadas pela perda ou falta de alguém, é como se nos amputassem o ar, mas ainda sim continuamos vivendo, a personagem de Jeanne em algumas cenas, lembram bem esse tipo de sofrimento, é sútil, e por isso mesmo explorar a complexidade de algo simples, que em muitas vezes não requer explicação, desde que já se tenha passado por semelhante situação, é o grande mérito de  Amantes de um dia que transporta para a tela de forma cartesiana e egoísta as relações amorosas.



sábado, 8 de agosto de 2020

Planeta Fantástico

Por Pachá

O cinema de animação europeu tem total hegemonia das produções francesas, e fica atrás apenas de USA e Japão. O sucesso não só, em quantidade mas em qualidade das animações francesas, se dá pelas escolas como Goblins, Rubika, Mac Guff, este ultimo um estúdio de efeitos digitais.

Planeta fantástico é uma ficção cientifica de 1973 realizada em conjunto pela França e Tchecoslóváquia, ambientada no planeta Yagam na qual uma raça de alienígenas, Draggs tem como pets, bichos de estimação, humanóides, denominados Oms.

Em 1968 países aliados do pacto de Varsóvia, liderados pela Russia invadem a Tchecoslováquia. Essa invasão ficou conhecida como operação Danúbio. A animação de Laloux (1929 - 2004), pega esse fato histórico para criar suas metáforas surrealista sobre essa ocupação. Isso não é muito explicito, e eu só soube dessa conexão nos extras do DVD.

A relação entre Draggs e Oms bem mais lembra a cosmologia grega, no qual os Titãs que dominavam Gaia, são derrotados pelas suas criações, que vieram e se tornar os deuses mitológicos. Na trama de Planeta Fantástico há uma nítida relação, entre Prometeus que desafia Zeus ao levar a sabedoria aos mortais. O oms Terr ao aprender o idioma dos Draggs, acaba por se revoltar e foge para se juntar a outros Oms, que são denominados uma praga, tal qual ratos, se reproduzem rápidos e são autodestrutivos. Ao difundir o conhecimento para os Oms estes passam a utilizar a tecnologia Dragg para fugir do planeta Yagam, mas no processo de liberdade e fuga, há também um rastro de destruição, lembrando como se deu o domínio da espécie humana sobre as demais espécies e também a relação com o planeta que habita.
O estilo da animação é bem característica dos anos 70, com muitas cores e tons psicodélicos e o misticismo que reinava na época. Senti falta de uma trilha mais potente, isso em parte é explicado pelas produções da saudosa revista Heavy Metal. Mas os traços são bem harmoniosos e muito expressivos na composição dos Oms. 

Uma outra referência que me chamou atenção, foi o livro Café da Manhã dos campeões de Kurt Vonnegut, no qual há uma estória muito semelhante nos devaneios de Dwayne Hoover, até porque o livro também foi lançado em 1973. E Vonnegut tem em suas narrativas, mensagens pacifistas, ainda que encharcada de surrealismo.

Para quem é fã de animações, Planeta fantástico é obra obrigatória. E ainda que animação não esteja no hall das preferências cinéfilas, ainda sim vale a pena, pois a trama levanta várias reflexões.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Les Amants du Pont-Neuf

Por Pachá

Uma das produções mais caras do cinema francês naquele momento, e que levou 3 anos para ser concluído. É bom frisar que a ponte que dá nome ao filme, foi reconstruída em estúdio, o que por si só já é sensacional. Um ponto que chama atenção é a paixão que o diretor nutre por Paris, não a Paris dos filmes comerciais que retratam a cidade das luzes com pessoas falsas, fúteis imersas em pequenos dilemas cartesianos. 

A trama reside na obsessiva paixão de um mendigo, Alex (Denis Lavant) por uma mulher que vaga pelas ruas e que está prestes a perder a visão, Michèle (Juliette Binoche). A forma com que Alex vai preenchendo seus dias com a idéia de um amor, de alguém para dividir essa Paris tão peculiar, das praças, feiras democraticamente compartilhada por malandros, turistas e mendigos nos deixa com a sensação de que para sobreviver basta um amor, o resto a cidade oferece de bom grado, e como escreveu Sartre, "... desde que seja gozado modestamente". 


Alex muito mais que Michèle é um ser liquidado, seu passado e presente parece estar conectado com essas ruas, essas praças, e um futuro incerto, já Michèle tem um passado, já amou e sofreu e como escapismo dessa desordem, tem no desenho seu refúgio, mas que pelas artimanhas do destino, esse também aos poucos lhe é negado com a iminente cegueira. Ambos tem em comum a obsessiva maneira de encarar a vida. A atmosfera de catástrofe preenche as cenas, já que uma estória de amor inusitada como esta, a moda punk niilista repleta de extravagâncias, com toques de Bukowski, Leonard Cohen e todos os artistas de sarjeta que já flâneuram pela Paris tão exaltada por Miller e Sartre que alenta e confronta uma vida cheia de som e fúria na qual a única coisa que parece fazer sentido, e paradoxalmente por não ter explicação, é o amor, e este na composição mais romântica, injetado de loucura, doença, morte.

A fotografia é bem trabalhada para conferir essa atmosfera escura e a forma crua, barroca até, de conectar pessoas, por meio de uma cidade, das estrelas. A cena em que Michèle vai ao Louvre para ver um quadro de Rembrandt com luz de vela, pois com as luzes artificias fluorescente mais atrapalham que ajuda, é de uma sensibilidade devastadora, da perda de usufruir as pequenas coisa, mas que são essas que dão sentido a vida. Lembrou muito uma passagem da biografia de Chet Baker, quando ele perde os dentes, e para um trompetista, a embocadura é tudo, sem ela, é fim de carreira, mas ele insiste e vai em frente, pois sem a música só lhe resta a morte...







terça-feira, 30 de junho de 2020

Maitresse

Por Pachá

A filmografia de Barber Schroeder é bem eclética, transita por blockbusters, como Murder by numbers 2002, estrelado por Sandra Bullock, e seu início mas independente, fase dos anos 70, 80, na qual está, em minha percepção, seus grandes filmes, na maioria escrito por ele. Maitresse é dessa fase, e narra um fato insólito, um bandido por ocasião Olivier (Gerard Depardieu), tenta roubar uma casa, porém é surpreendido por Ariane (Bulle Ogier), que é uma dominatrix, e tem nessa atividade seu luxuoso sustento de vida.

O filme ganha ares românticos, quando o malandro convida Ariane para jantar. A partir dai há um envolvimento entre os dois, Olivier se transforma em amante e assistente de Ariane, mas esse envolvimento emocional acaba por distanciar a dominatrix de seus clientes, no sentido de que ela começa a perder o feeling do que os clientes precisam, e entenda-se fetiche, masoquismo e todo tipo de tara que infesta a mente humana, e como bem diz  Ariane, eu gosto de criar e entrar nas fantasias deles. As cenas de BDSM são muito realísticas, creio ate que envolve praticantes reais, tamanho é o realismo. O filme foi censurado no reino unido, e só foi liberado em 1981, assim mesmo com mais de 4min de cortes.


O enredo é razoável, porém o pano de fundo da relação dos protagonistas e respectivas atuações, criam cativante história de amor sem as pieguices do gênero. Depardieu está muito bem, como um fanfarão meio canalha, porém de grande coração quando o assunto é envolvimento emocional. Ogier convence como dominatrix, com ar blasé, sexy com olhar enigmático nos diálogos, objetiva e a vontade no papel, que coloca em choque a estrutura frágil, ela lembra uma boneca Barbie, e esse era o padrão de beleza dos anos 70, magra porém com muito sexy-appeal  e sua transformação quando encarna a dominatrix. 

A fotografia é assinada por Néstor Almendros (1930-1992), que fotografou para o pessoal do Nouvelle Vague, e um dos grande diretores de fotografia, quando esta estava começando a ganhar relevância enquanto narrativa. Em Maitresse as composições ganham destaque nas cenas de BDSM, ao levar o telespectador para cena de forma muito contundente, um tapa na bunda é de verdade, o vermelho dos vincos do cinto ou chicote são de verdades, e muito bem captados pela câmera de Néstor e aliado ao belo contraste de cores criam um espetáculo.

Schroeder já havia investigado a liberdade sexual e estados elevados da consciência em The Valley de 1972. E fica claro ao navegar pela sua filmografia, que ele tem uma predileção para tramas que transitam pelo underground cultural.



magnetlink - maitresse 1976
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sexta-feira, 12 de junho de 2020

Je t'aime moi non plus

Por Pachá

O filme de Serge Gainsbourg é uma ode ao sexo anal, todo o filme é concebido com esse intuito e a brutalidade que essa modalidade de "amor" carrega, a cena protagonizado por Gerard Depardieu e Padovan (Hugues Quester) não deixa dúvida. O filme abre com um caminhão, um mack e nesse simbolismo há toda uma masculinidade com pelagem homosexual. O caminhão é quase um fetiche, sempre filmado em ângulos diferentes, dos pneus a carroceria, seu condutor Krassky (Joe Dallesandro) carrega os traços dessa masculinidade, porém suas preferências sexuais recai sobre meninos, e nisso há uma espécie de aviso, caso não queria sofrer como Padovan, que apanha de outros héteros pelo fato de ser homosexual, o mesmo não acontece com Krassky, que é tão macho quanto os heteros, e portanto tão perverso quanto estes.

Em uma parada para almoço, Krassky conhece Johhny (Jane Birkin), com sua aparência andrógina, e esta cai logo no gosto de Krassky, e a partir dai reside o amor com complicações, já que Krassky se apaixona por Johnny justamente pela sua aparência de menino, e apesar de todos os avisos de que Krassky gosta de rapazes, Johnny insiste no romance.


Em seu debut no cinema, Gainsbourg além de abordar o tema sexo anal, nos anos 70, coisa que poucos filmes o fizeram na época, ainda emplacou a famosa música que fez grande sucesso nos hits de motéis dos anos 80, era ligar o som, e lá vinha o órgão inconfundível de Je t'aime moi non plus. A técnica, pode parecer que foi comprometida em detrimento do simbolismo, a fotografia é descuidada, talvez de maneira proposital e o pouco recurso, acabam por se alinhar com a narrativa. O filme é todo rodado durante o dia, e creio que usa muito pouca luz artificial, mas ainda sim há cenas sem foco, just do it, bem ao estilo punk rock, não que seja ruim ou comprometa a narrativa, mas me incomada.

As interpretações, são mais naturais, sem pudor, pois assim é o ato sexual, no qual nos despimos não só das roupas, mas de muitas convenções sociais. A cena em que eles param o caminhão para Johnny fazer xixi e a câmera faz o enquadramento do ato, é bem emblemático. Birkin que a essa época já era mulher de Gainsbourg, não se faz de rogada e se entrega em cenas de nudez, sexo e violência. Dallesandro, o galã da época, sexy symbol também tem boa presença e faz belo par com Birkin.

Há também várias cenas que podem ser confundidas e ter a interpretação de que o sexo anal é sujo e imoral. O patrão de Johnny vive peidando, e recebe de Krassky o apelido de cagão. A cena em que eles descarregam o caminhão repleto de lixo em um lixão e logo depois vemos eles, Krassky e  Padovan, carregando o caminhão de latrinas e bidês em minha percepção tem conotação ao sexo anal e a homosexualidade, alias todo o filme é carregado dessa atmosfera.

Quando eu assisti a esse filme pela primeira vez, na videoteca do CCBBRJ, achei que era um filme pós apocalíptico com tema gay, já que o cenário, o interior de uma cidade que pode ser em qualquer lugar, é bem desalentado, a cena das compras, no qual Johnny compra carne de cavalo em mercado a beira a estrada é de uma desolação pós hecatombe. O baile, escatológico, no qual ocorre cenas burlescas, também me deixou com essa percepção...

Um filme que coroa o universo de Gainsbourg de paixão pela morte, sexo sem censura e o cinismo diante da sociedade conservadora.


C'est l'amour bébé. Croyez-moi, c'est rare.





segunda-feira, 25 de maio de 2020

Blood Machines

Por Pachá


Ickerman é conhecido pelos seus trabalhos de VFX, principalmente  em vídeo clipes da banda Carpenter Brut . Em Blood Machines é visível as referências do clipe, Turbo Killer

O que encanta em Blood Machines é o visual futurístico de galáxias distantes com design VFx (não confundir com CGI e SFx) e que embalada pela trilha, claro, de Carpenter Brut confere ao trabalho a experiência de estarmos assistindo a um longo, porém legal, video clipe musical.

Há para quem já se debruçou sobre a obra de William Gibson, Neuromancer, lembranças nas passagens em que Case, personagem do livro, está navegando pelo Cyber Espaço com seu estilo de cowboy cyberpunk.

As interpretações são básicas que não afetam, mas que também não agregam muito valor a trama. A fotografia é difícil, já que o uso de VFx é o ponto forte da série e deixa a atmosfera com muita propriedade e beleza.







domingo, 12 de abril de 2020

High Life

Por Pachá

O primeiro filme em língua inglesa da diretora francesa, Claire Denis, é pouco palatável e com uma história suspensa por tênues fios de lógica, quando se trata de filmes do gênero ficção científica, ficando a atração por conta das ótimas atuações, principalmente de Robert Pattinson que vem se livrando da estigma do filme de vampiros juvenis (não confundir com Lost Boys).

A premissa é simples, como todo space movie, tripulantes vão aos confins da galáxia, seja para resgatar, estudar ou para encontrar fontes de energia alternativas, que é o caso de High Life. Mas em se tratando de Claire Denis, cuja filmografia vale a pena ser conferida, mesmo histórias contadas a exaustão, como é o caso das histórias espaciais, ela consegue colocar elementos que conduzem para longe do lugar comum, mas aqui, esses elementos acabam tirando o peso da narrativa, deixando a ficção cientifica como pano de fundo para um drama humano, que em minha percepção poderia ser contextualizado na Terra. 

Um ponto negativo, que pouco convence é o design de produção em se tratando de um sci-fi movie, mas que por outro lado deu a fotografia um papel fundamental, pois é ela que compensa essa arte pouco convincente, até possível ver inspirações em Solaris de Tarkovski nas cenas no interior da nave e também nas cores mas que não passa disso. A câmera de Yorick Le Saux e Tomasz Naumiuk é criativa e se movimenta com muita propriedade conferindo belos ângulos dos personagens, e mesmo o ritmo lento proposto para o roteiro, a fotografia cria dinamismo muito atraente com paletas de cores que fogem do característico tom asséptico dos filmes de naves espaciais.


O elenco tem nomes como Juliette Binoche, em uma personagem que é assinatura de Claire Denis, carregada de uma sensualidade animalesca e cartesiana, a cena em que ela se masturba em uma espécie de touro mecânico e depois se auto compara a uma bruxa, é sensacional. Pattison encarna um personagem mais humanizado da trama, que carrega o dilema humano diante do universo desconhecido, e aqui vale lembrar que nenhum membro da equipe é cientista especializado em matéria de astrofísica ou áreas ligados ao universo, todos são criminosos, são os refugos da sociedade que trocaram redução da pena ou arrependimento de uma vida de delitos por algo glorioso em uma missão suicida. Mia Goth (A Cura 2016) tem boa participação. André Benjamin faz ótima dupla com Pattison em diálogos que humaniza as questões por trás da missão.

Sou fã de Claire Denis mas não creio que esse seja o melhor filme para iniciar a filmografia dela, e sim Bom Trabalho seguido por Desejo e Obsessão e ai sim acho que poderá entender melhor High Life.


sábado, 10 de março de 2012

Beau-Pére - A Filha da Minha Mulher 1981


Por Pachá

Filme causou grande polêmica por onde passou. Rémi (Patrick Deware) é pianista de sofisticado hotel, mas teme que não tem talento para passar disto. Sua esposa Martine (Nicole Garcia) é modelo fotográfica que já perdeu flor da idade. O casal passa por difícil situação financeira. Martine tem uma filha de seu primeiro casamento, Marion (Ariel Basse) de 14 anos. Num golpe inesperado do destino, Martine Morre. 

Sozinhos, Remi e Marion tentam conduzir suas vidas. Marion por decisão de Remi vai morar com pai biológico Charly (Maurice Ronet), mas Marion se rebela, recusa-se a morar com pai. Não tarda e Marion explica que está apaixonada por Remi. 

Nesse drama entre um adulto de 30 anos e adolescente, Bertrand cria casta atmosfera de erotismo. Marion demonstra ser mais evoluída que parece, quando tenta convencer Remi de que ele é a melhor pessoa para inicia-la na vida sexual. Remi reluta, mas Marion é incansável e os argumentos usados por ela é de uma precisão cartesiana, e gera lindos diálogos. Por fim, como Remi mesmo diz - Não quero ser mais herói. E paixão entre os dois explode. 


É bom notar que o filme nada tem de pedófilo, até porque, toda iniciativa parte da madura Marion. A cena em que eles vão ao motel pra primeira relação, é de uma inocência quase poética. Remi não tem dinheiro sequer pra pagar quarto, Marion lhe dá mil francos. Decididos, os dois mantém romance em segredo. Bertrand usa muito bem a segurança cênica de Ariel e a inocência do personagem de Patrick, proporcionando atraente e comovente historia de amor. O filme é duma beleza pura recheado de passagens belíssimas. O final é bem interessante.

Os filmes de Bertrand orbita nesse mundo de prostitutas, cafetões, triângulos amorosos amores complicados. Até então único filme que tinha visto dele era Por amor ou por dinheiro, com Monica Bellucci como prostituta e Gerard Depardieu como cafetão. 



terça-feira, 26 de outubro de 2010

A Sereia do Mississipi 1969



Por Pachá

A visão de amor de Truffaut é sempre bela, não há filme dele em que o tema seja abordado que não tenha diálogos encantadores, sem espaço para pieguices. 

Em a sereia do Mississippi ele não só homenageia o seu mestre, Hitchcock, como cria um clima de amor bandido, copiado a exaustão por Hollywood que se fôssemos listar levaríamos um dia inteiro. Pois bem... o elenco é  cativante e sexy, Deneuve no papel da ambiciosa e golpista Marion Vergano, que ao se passar por uma tal Julie Roussel, viaja para ilha de Reunion, no extremo sul do continente africano, para conhecer seu futuro marido, Jean-Paul Belmondo, o empresário Louis Mahé do ramo de tabaco. Mahé mesmo decepcionado, de forma positiva é bom frisar, ao descobrir que a mulher com quem se correspondeu durante um longo tempo não tem a imagem que ele concebeu através de fotos e cartas. Mas ele se apaixona pela nova Julie de imediato e não se cansa de demonstrar seu amor por ela. Mas quando ele se dá conta de que tudo não passou de uma armação que  levou toda fortuna pessoal e da empresa, ele percebe que o amor ainda ficou e usa o roubo de sua fortuna como desculpa para procurá-la. 

Filme de belíssimo entrosamento entre Deneuve e Belmondo, ela em cenas sempre sensual, mesmo vestida, e quando tira a roupa para mostras seu lindos peitinhos é um furor só. A fotografia dos filmes de Truffaut não é ponto forte de seus filmes, em minha opinião, mas que é plenamente compensado pelos movimentos de câmeras, muito bem composto com planos largos enquadramentos que deixa tudo muito claro para o telespectador, cortes que a principio causa estranheza, que assim como a fotografia, são heranças do nouvelle vague.


Há uma parte do filme que é pura poesia. O casal já sem dinheiro e fugindo de um assassinato. A bela e ambiciosa  Marion bola um vil plano para fugir com o pouco dinheiro que lhes restam, inicia um lento envenenamento, com veneno de rato no café, Mahé se dá conta mas não diz nada.

- Pode encher  até a boca. Diz Mahé para Marion que lhe serve café, já se sentindo muito mal com o efeito do veneno que devora suas entranhas. Ele prossegue.

- Não me arrependo de procurá-la. Não me arrependo de te amar. Não me arrependo de ter matado por você. Eu sei o que você pretende, mas faça rápido, pois isso está me causando muita dor.

- Você sabia de tudo o tempo todo. Choraminga Marion, que não aguenta mais e se rende de vez por esse amor. E promete que cuidará dele e que ninguém vai tirá-lo dela. E o final é como todos os filmes de Truffaut um mar de inúmeras possibilidades.