domingo, 9 de julho de 2017

Born Into This (Documentário sobre Bukowski) 2003

Por Pachá
John William Corrington disse, em 1962, que até o final do século XX Bukowski seria conhecido como o escritor que libertou a poesia dos clichês acadêmicos. Se isso é verdade, não sei dizer, o que sei que o velho safadão escrevia com a necessidade de um afogado agarrado ao bote salva vidas, e o documentário de Dullaghan mostra isso através de imagens e videos de arquivos, depoimentos de amigos e editores.

O filme mostra um Bukowski diferente do personagem criado em seus romances e poesias, quer dizer nem tanto assim, mas mostra um lado difícil de visualizar do escritor, um lado mais sentimental, sensível que fica patente em cena em que ele chora ao recitar um poema que fala sobre Linda King, e ele mesmo se mostra constrangido ao se pega tão sentimental.

Para quem aprecia a literatura do velho safadão, esse documentário é uma deliciosa imersão na vida e processo criativo do escritor, repleto de cenas de arquivos e depoimentos de caras legais como Tom Waits e Bono.





sábado, 10 de junho de 2017

Evolution (Evolução) 2015

Por Pachá
Evolution é daqueles filmes que divide a critica em seus pontos extremos, dos que acham o filme ruim, e daqueles que dizem se tratar de uma obra prima sensorial contemporânea.

Quanto mais assisto a filmes, tanto mais me convenço de que os mesmos não necessariamente precisam fazer sentido, desde que a veracidade interna da obra seja convincente. Evolução em minha percepção peca por esse deslize, na veracidade interna. Há uma certa pretensão nesse tipo de filme, de querer fazer das imagens muito mais do que elas são. A cinematografia do filme, é exuberante tanto que ganhou prêmio no festival de San Sebastian em 2015, mas os poucos diálogos e muita sugestão por parte do roteiro acaba por prejudicar a trama como todo. Mas por outro lado esses filmes são vias largas para interpretações, ainda mais quando se trata de roteiro original, e creio que nesse sentido se apoia o grande mérito de Evolution.

O local é uma ilha sem localização. Seus habitantes são mulheres, com visual andrógino, e seus respectivos filhos na faixa dos dez anos de idade, apenas meninos. Há algo de estranho e sobrenatural até no comportamento dessas mães e seu relacionamento com o mar, que mais lembra uma espécie de bruxas do mar. O ritmo excessivamente lento do enredo ainda que avance, libera muito pouco sobre os personagens. Destaque mesmo para Nicolas (Max Brebant) que ao descobrir por acidente um corpo no recife de corais onde mergulha, relata para sua mãe, que o desacredita dizendo que o mar nos faz ver coisas.
As crianças que habitam essa ilha paradisíaca, de acordo com a história nunca viram outro mundo a não ser este, e a partir desse fato o roteiro tenta nos induzir uma realidade compatível com que seria uma vida terráquea normal, sim, pois dado altura, dentre as muitas interpretações, é possível seguir a linha de uma raça alienígena que abduziu crianças e com elas fazem experiências de biogenética ou bioengenharia. Essa raça assim como os humanos teriam sua origem nos oceanos. 

Nicolas parece ser o único que tem flashes de memórias de um mundo do qual foi retirado, ou talvez nunca tenha conhecido, pois ele desenha coisas, como uma roda gigante, carro, gato, bicicleta, coisas que não existem nessa ilha. O roteiro, é muito sugestivo no sentido de trabalhar motivos das experiências ou mesmo existência desse lugar. Outro ponto bem interessante do roteiro é colocar a história sob a ótica de uma criança, e consequentemente de suas interpretações que acaba sendo também a do espectador.

As interpretações não são o ponto forte do filme, dado aos raros diálogos porém com um direção segura e consciente com explicito foco na arte e fotografia, o filme cria atmosfera carregada de mistérios, que não são revelados, e deste, é onde reside as divergências quanto a qualidade da obra. No âmbito geral, o filme é agradável, e não abusa do tempo de duração, o filme tem pouco mais de 80min, e profundamente amparado no visual estonteante da ilha vulcânica em meio ao oceano.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

The Void

Por Pachá
Produção canadense com forte influência dos filmes de terror dos anos 80. Há tantas referência em The Void que mais lembra um mosaico de filmes como; The Thing 1982, Hellraiser 1987, The Mist 2007, In The mouth of madness 1994 mas que fique claro que isso não é demérito para a produção, pois há muita propriedade no uso dessas referências e elementos como misticismos, criando uma atmosfera aterrorizante.

A trama é um tanto inusitada, e sem muitas explicações mas sem comprometer a veracidade interna ou mesmo o desenrolar dos acontecimentos. Já na primeira cena, vemos um execução sem misericórdia alguma, e coloca um mistério que apenas será levantado ao longo do filme quando nem mesmo os personagens, sabem do que se trata, ainda mais quando entra em cena figuras de uma seita que lembra a ku klux Klan. 

Um grupo de pessoas se vê presas em um hospital, onde há uma criatura que assume corpos e os desfigura, e lá fora encapuzados estranhos dispostos a matar qualquer um que tenta sair do hospital. Não explicações das ações desses seres, tudo é atribuído ao sobrenatural de conhecimentos que certamente não é do mundo terrestre ou dos seres humanos. 

A graça do filme reside na estética gore com efeitos realizados com maquiagem, não sei se há CGI na composição das cenas, e se há é muito discreto, mas o resultado final nos deixa a sensação de estar diante de um filme criativo no uso dos recursos, e com profunda familiaridade com tema, terror, além de uma história atrativa sem previsibilidade. A fotografia de Samy Inayeh capta bem os momentos sanguinolentos, das feridas com bisturi, facas do sangue jorrando, sem cair no vulgar, do quanto mais, melhor.

No elenco não há rostos conhecidos, ao menos eu não lembro de ter assistido nada com estes atores. Mas todas as falas são muito bem colocadas, as participações precisas sem encher linguiça, o que torna o filme muito enxuto e muito bem equilibrado entre ação e momento de sobrevivência.

Em tempos onde terror significa corpos se retorcendo, almas andando pelo teto The Void esta na contra-mão desses clichês e garante boa diversão.