segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Guerra de Algodão

 

Por Pachá

Dora (Dora Goritzki) é uma adolescente que cresceu na Alemanha mas por motivos pouco trabalhado, precisa morar com a vó em Salvador. Dora não sabia da existência desse parente no entanto divide o mesmo teto com essa estranha em uma terra mais estranha ainda.

A jornada de Dora para conhecer suas origens e a própria transição da fase adolescente para adulta a coloca em conflito com sua vó, e ai já demanda uma grande pergunta, por que submeter uma adolescente a esse martírio???

As resposta do roteiro abraça os clichês de praxe que há entre o choque de duas gerações, brigas por qualquer coisa, a cena da sopa é um exemplo. Maria (Thaia Perez) a vó, se considera um ser livre, e por escolher o que de fato queria para sua vida, atuar, se distanciou de sua filha, e agora que percebe a cortina da vida se fechando há uma certa urgência em conhecer a neta e uma aproximação da filha.

As atuações são poucos convincentes, Dora é apática com diálogos teatral, creio que faltou uma pouco mais de revolta. Thai Perez sempre correta e que esbanja talento, não consegue desenvolver os conflitos que o personagem demanda. Os personagens secundários não favorece ou ajuda em subtramas ou trama principal, e pouco servem para conhecer o protagonista. E se aposta era no silêncio, creio que houve inversões, onde caberia o silêncio colocaram diálogo e vice versa.


A fotografia é bem resolvida em captar o ambiente estranho a Dora, a cidade de Salvador, como suas cores, miscigenação, sotaques e gastronomia.

No âmbito geral, Guerra de Algodão é um bom filme ainda que caia no lugar comum das jornadas de autoconhecimento.



quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Sem seu Sangue

 

Por Pachá

As dores, incertezas, aflições que rodeiam a transição da adolescência para fase adulta é uma fonte inesgotável para o cinema, dado que a cada geração e mudança de hábitos da sociedade esses conflitos ganham outras nuances.

Silvia (Luiza Kosovski) é uma adolescente que precisa lidar com a perda de seu namorado, Arthur (Juan Paiva) que é hemofílico. A linguagem narrativa com poucas explicações, bem ao estilo video clipe, explora as reações de Silvia sob a ótica imediatista e pouca estrutura para lidar com frustrações e perdas que caracterizam a geração dos anos 2000 ou Z.

A trama ganha atmosfera misteriosa quando Silvia parte para entender seu sofrimento ao procurar pessoas próxima a Arthur. Nessa viagem que também representa o autoconhecimento, o roteiro imprime estranheza e falta de lógica para compor o universo da personagem, e ai, não sei se foi intencional, mas fiquei com a percepção de falta de empatia pela personagem, como aqueles que sofrem com dedo furado por um alfinete, ou seja, um sofrimento arquitetado por um demanda oportunista. Entendo que há todo um trabalho para fugir dos filmes teenagers com personagens condenados a morte por um câncer ou doença rara.

A fotografia de Felipe Quintelas é primorosa, com enquadramentos e movimentos que auxilia o ritmo amplificando o ar misterioso, com muito uso de neon, lembrando os filmes de Nicolas Winding Refn, mas precisamente Neon Demon.

As atuação não ferem nem engrandecem a trama, mas Luiza Kosovski carrega bem esse ar de agonia silenciosa dos adolescentes, ainda que os diálogos e sua narração sejam um pouco forçada.

Sem seu Sangue vale muito ser visto, ainda que fique restrito a uma público mais atento para esse tipo de narrativa.

magnetlink sem seu sangue

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Última Noite no Soho

Por Pachá


Não há nada mais confortante do que se abrigar em um passado idealizado, romantizado quando o presente se apresenta como algo hostil e assustador.

Última Noite em Soho é um terror clássico, com grandes referências aos filmes do gênero. E que possui a premissa de confrontar o moderno o novo com antigo, vintage.

Eloise (Thomasin McKenzie) é uma jovem do interior que vai para Londres com intuito de se tornar uma estilista. Embalada pela música dos anos 60, Eloise tem um histórico familiar complicado e desde que sua mãe faleceu, ela foi criada pela vó e tem visões da mãe. E ao alugar um quarto nos arredores do Soho ela começa viver uma vida, em sonho, de uma garota, Sandy (Any Taylor-Joy) munida dos mesmos ideias que Eloise, conquistar um espaço e fama. E não tarda para os sonhos se transformarem em pesadelos.

Edgar Wright não tem medo ou pudor de usar os clichês do gênero e o faz com grande propriedade conferindo a trama certa elegância e imprevisibilidade, em um roteiro enxuto é bem construído.


A transição entre passado e presente é um dos pontos altos da produção, aliado a uma fotografia bem trabalhada com luzes neons que amplifica ainda mais a atmosfera nostálgica, em uma trama que lembra muito o gênero Giallo e filmes de suspense dos anos 60.

As duas atrizes entregam atuações em alto nível, destaque para Anya Taylor-Joy que tem um arco dramático um pouco mais trabalhado e Thomasin um personagem mais construído. E uma homenagem a Diana Rigg que vive Ms Collins, que brilhou nos anos 60 em filmes como 007 a serviço secreto de sua majestade, As 7 máscaras da morte, etc

Para os fãs do gênero Última Noite em Soho não vai decepcionar, ainda que o desfecho seja um tanto básico, quando comparado com o desenvolvimento da trama até o ato final.


 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Lamb

 
Por Pachá

Com ritmo lento e imerso na total falta de lógica como narrativa, Lamb tem a mesma atmosfera de The Witch 2015, aliás há muitas similaridades entre os filmes, e não é pelo fato de ambos serem produtos da A24. Há uma simbologia pautada na bíblia na qual a figura paterna é associada ao anjo caído, Lúcifer e também da escolha do carneiro, que na bíblia é associado a figura do menino Jesus.

María (Noomi Rapace) e seu marido, Ingvar (Hilmir Snær Guðnason) vivem isolados numa fazenda na Islândia, na qual criam ovelhas e carneiros. A rotina é tão monótona quanto pesada, mas ambos parecem resignados em um pesar por alguma perda que é muito bem trabalhada pelo roteiro ao encaixar as peças que preenchem a historia pregressa de María e Ingvar.

A rotina do casal é quebrada quando adotam uma bebe ovelha, e a partir desse ponto é exposto toda aposta do roteiro em uma narrativa alicerçada na falta de lógica e do estranhamento. A chegada de Pétur (Björn Hlynur Haraldsson) irmão de Ingvar coloca em curso uma trama paralela que sugere um relacionamento antigo e infiel de María com Pétur e que também explica, mesmo que muito sútil, o pesar do casal, María e Ingvar, que mais tarde ficamos sabendo se tratar da perda de uma filha.


Embora a A24 tenha distribuído o filme, ela não teve qualquer intervenção criativa na obra, ou seja, a A24 comprou uma obra pronta. A produção executiva é de Noomi Rapace e Béla Tarr. A fotografia explora as grandes paisagens islandesa explorando a solidão e nossa impotência diante da natureza indomável.

A parte do realismo fantástico fica por conta do bebe híbrido e a fácil conotação com personagens bíblicos, como Maria, Pedro, o fato de Ingvar ser marceneiro e a própria forma como esse bebê ovelha é adotado e de como esse bebê inspira compaixão em um presépio bizarro.

Lamb é da safra dos filmes de terror contemporâneo que aposta não só no manjado maniqueísmo forças maligna versus bem, mas também, no ser humano como criador de seu próprio inferno onde há uma conjunção do surrealismo e da vida dura e implacável na qual nos apegamos como lastros do oficio de viver, e ai é fácil se expor ao estranho e adotá-lo como normal.



quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Duna 2021

 
Por Pachá

O filme tão aguardado pelos fãs do livro e gênero sci- fi, em sua primeira parte, como vemos logo nos créditos iniciais, cobre metade do livro I, Duna, da saga escrita por Frank Hebert que é composta por 6 livros, todos com mais de 500 páginas.

As escolhas de Villeneuve para transformar a narrativa de Duna em imagens, ao mesmo tempo palatável para quem não conhece o universo do livro e agradar aos fãs, justifica os pontos obliterados da história original ou mesmo a ressignificação de personagens, mas ainda sim não está isento de criticas.

A comparação com o filme dos anos 80 dirigido por Lynch, em minha percepção, é inevitável ainda que Lynch tenha renegado a obra. É óbvio que o aspecto visual, proporcionado pelo CGI, deixa o filme de 2021 em vantagem, fato consumado. As naves de Duna 2021 lembram em muito a nave de Arrival 2016. O figurino não me chamou atenção, diferente do filme de 84 no qual as indumentárias acentuavam  a diferença entre as casas, Harkonnen e Atreídes, ou mesmo da "espada" do imperador, os temíveis Sardaukar, uma espécie de espartanos, e ai até a forma de falar e expressão dos sardaukanos, no filme Villeneuve, lembra os 300 de Snyder.

Analisando os personagens, o duque Leto e lady Jessica, são os que mais sofreram, seja pela ressignificação ou atuação. Isaac como Duke Leto fica aquém da interpretação de Jurgen Pruchnow e do próprio personagem do livro. Francesca Annis leva certa vantagem em relação a Rebecca Ferguson, mas creio que na segunda parte, esta deve ter um arco dramático mais relevante, já que nessa primeira parte sua personagem está um tanto distante do que é descrito no livro e principalmente de sua importância nas intrigas palacianas.

Timothée como Paul Atreíde foi uma escolha bem acertada, comunga muito bem com o personagem do livro, juventude, tormento, vigor. Essa primeira parte é muito bem centrada na apresentação dos personagens, principalmente Paul Atreídes. O mesmo não se pode dizer dos personagens Harkonnen, Raban the beast interpretado por Dave Bautista não impõe medo como sugere o personagem do livro. Stellan como barão Harkonnen não tem muitas aparições nessa primeira parte, mas garante grande presença quando em cena. E acredito que a segunda parte será uma apresentação da casa Harkonnen e os planos do barão para usurpar o trono imperial, deixando como sucessor da casa Harkonnen, seu sobrinho, Feyd-Rautha Harkonnen vivido por Sting no filme de 84. A Freme Chani vivida por Zendaya tem uma discreta aparição, e esta também deve ter um arco dramático mais desenvolvido na segunda parte.


Um ponto muito sacrificado na narrativa proposta por Villeneuve foi as intrigas feudais, dado que a saga dos livros de Herbert, como todo escritor de épicos sci-fi pós guerra, tinha como lastro a idade média, e esta, está imersa em intrigas, relações de poder entre casas, reis, e religião. Isso tudo é muito fácil de se observar em Duna, assim como culto a personalidade, do messias, do predestinado. E é desse meio que vem o tormento de Paul que teme uma guerra galática pelo poder imperial desencadeada pelo seu "renascimento" como Kwisatz Haderach, que significa "aquele que pode estar em muitos lugares ao mesmo tempo" um messias planejado geneticamente ao longo de várias linhagens pelas Benne Gesserit e que se daria entre um casamento de um Harkonnen e uma Atreíde. E creio que isso será trabalhado na segunda parte.

A paleta de cor, bege/amarelo predominante, de Dune oferece pouco contraste, e creio ser proposital, pois quando algo quebra esse ton, causa um bom impacto, como uma pele preta, o vermelho sangue.  O diretor de fotografia, Greig Fraser é adepto do menos é mais, movimento de câmeras contidos, composição e enquadramentos com esmero e pouco contrastes de iluminação, nada que chame muito atenção como por exemplo a fotografia 84 de Freddie Francis (1917-2007) ou mesmo de Storaro para mini série de 2000.

Um ponto que me decepcionou bastante foram as armaduras, parecem mesmo da idade média, principalmente dos Atreídes, são feias e transmitem a sensação de engessamento.


É sabido para fãs, que o Jihad Butleriano derrubou o deus-máquina, e implantou o lema paradigma de que "O homem não pode ser substituído" e por esse fato, histórico na trama de Herbert, que não há humanóides, IAs, ou mesmo computadores, e claro no centro dessa revolução religiosa estão as Benne Gesserit.

Duna 84

Duna 2021

Os demais personagens, Fremens, acredito, serão mais aprofundados na segunda parte, caso de Javier Barden como Stilgar.

Dado a complexidade de transposição do livro para tela, Duna 2021 cumpre bem esse papel, e acredito que não decepcionará os fãs, mas ainda sim deixará um quê de poderia ser melhor, resta saber se a segunda parte vai ousar, ou será burocrática no sentido de atender fãs e leigos do universo Duna. 

Em uma analogia futebolística, Duna é aquela partida com placar 0 x 0, mas com alguns lances bonitos.


quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Pense como um artista

 

Por Pachá

Adotar práticas criativas para soluções de problemas ou criação, não necessariamente deve ser algo exclusivo para artistas. E a partir dessa premissa Gompertz investiga o processo criativo de artistas como DaVinci a Ai Weiwei.

O autor defende que a criatividade pode ser desenvolvida, e que conectar idéias e realiza-las, não é oficio apenas do artista. 

Os artistas mais consagrados do mundo erraram muito mais que acertaram. Eram pessoas comuns, mas persistentes. Não se limitavam à ideias prontas e estavam sempre em busca de mais conhecimento. Curiosidade é uma habilidade sempre presente no artista, mas que sempre estava aliada ao foco. Pensar como um artista abre sua visão para o todo, mas não nos permite apenas observar.

Não se render ao primeiro fracasso é parte fundamental da jornada do pensamento criativo. Gompetz ilustra alguns casos de persistência e resiliência de artistas como Van Gogh para citar algum.

“é absolutamente meu dever fazer dinheiro com meu trabalho.”  E essa fala de1883 de Vicent Van Gogh é uma síntese da importância de buscar conferir valor ao seu trabalho.

Gompetz que é editor de arte da BBC, e autor do livro Isso é arte? desenvolve com grande propriedade, ainda que abrace aspectos de coach, de auto ajuda, com frases de efeitos, mas que detalha de forma muito atraente o processo de  alguns artistas consagrados.

O livro não oferece panaceias do tipo, faça isso ou aquilo para obter sucesso ou fortuna com sua arte, e sim exemplos para se inspirar, seja qual for sua área da atuação.



sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Microhabitat

Por Pachá

O cinema contemporâneo coreano está imerso em uma premissa que permeia a grande maioria das produções, uma critica social ferrenha movida pelas fissuras econômicas que aflige os menos afortunados, aqueles que sofrem por não conseguir alcançar os padrões impostos por um capitalismo sedutor e indiferente aos sofrimentos dos que ficam a margem do sistema.

Jeon Go-Woon mostra uma coréia para poucos, e aos "vencedores" custos insanos. Mi So (Esom) tem um estilo de vida simples e com poucos prazeres, whisky, de forma moderada, e cigarros. As novas tarifas acarreta aumento nesses produtos e nos aluguéis. Com uma decisão sem muita hesitação, Mi So adota um novo estilo de vida, sem abrir mão de seus maiores prazeres, whisky e cigarros.


O novo estilo de vida de Mi So, ainda mais minimalista, traz inúmeras descobertas, principalmente acerca dos seus melhores amigos, e de suas fragilidades e posicionamento diante da vida em um país sedento pela felicidade instantânea, do consumo, do bem estar palpado em excessos e futilidades.

A fotografia é bem desenvolvida com enquadramentos e composições minimalistas acompanhando o arco dramático da protagonista.

Um filme com uma mensagem bem precisa e direta a cerca de nossa relação com o que realmente importa, ao final, sabemos que nada levamos dessa vida.


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Minamata

 
Por Pachá

Eugene Smith figura na lista dos melhores fotógrafos documental do mundo contemporâneo, capturou o cinismo e a crueldade de conflitos. E o desastre ambiental de Minamata, seu último trabalho, lhe conferiu ainda mais o caráter questionador de um mundo no qual os sapiens faz muito pouco pelo planeta e menos ainda pela sua própria espécie.

O desastre de Minamata foi causado pela contaminação da água por mercúrio, e consequentemente o peixe, alimento fundamental na dieta japonesa. Eugene é contactado por moradores, Aileen (Minami) da ilha de Kyushu para dar força ao movimento de denúncia contra a corporação Chisso que está envenenando a água e alimento dos moradores.

Falido e distante da família Eugene esta decidido a dar um outro rumo a sua vida, mas as dívidas e  próprio ofício de fotografar, seu verdadeiro lastro de vida, exercem grande presão e ele força o editor da Life, Bob (Bil Nighy) a lhe enviar para Minamata para cobrir esse evento.


A atuação de Deep é irretocável e em minha percepção um dos melhores atores de sua geração, ele encarna o estado perturbador em que se encontrava o fotografo, afundado na bebida, drogas, desanimado e carregado de remorso pelo distanciamento da família com uma atuação em apelos dramáticos exagerados.

A fotografia de Benoit Delhomme que também fez um primoroso trabalho em Portal da Eternidade, mais uma vez encanta com lindas composições, uma luz igualmente deslumbrante confere aos eventos poderoso elemento narrativo.

As atuações são cuidadosas, Sanada como líder ativista entrega excelente atuação, Minami é o ponto de conexão entre o mundo acidental, Eugene e o oriental, tem ótima presença de cena.E na vida real eles acabaram se casando.

Eugene Smith

A fotografia de Benoit Delhomme que também fez um primoroso trabalho em Portal da Eternidade, mais uma vez encanta com lindas composições, uma luz igualmente deslumbrante conferindo uma narrativa fluída, atraente e apaixonante para quem se dedica a linguagem fotográfica.

Minamata tem em sua trama o caráter denunciador, documental é também atrativo do ponto de vista de entretenimento, um filme que merece ser visto por qualquer um dos motivos apresentado.



segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Fundação - Trilogia

 
Por Pachá

Não há dúvida de que o nome Issac Asimov é sinônimo de ficção científica, e a trilogia Fundação é sua obra mais importante. 

A estrutura narrativa empregada nos três volumes é centrada em diálogos e pensamentos sobre o plano Seldon. Hari Seldon foi importante cientista que previu de forma matemática a decadência do império galático e caso seu plano fosse seguido, encurtaria o período de barbarie do interregno em mil anos.

Produzido na era de ouro do sci-fi americano, (1938-48), Fundação tem grandes saltos, elipses, de séculos os quais são enfatizados por crises que põe em funcionamento o plano Seldon e lideres do período.

Escrito entre os anos de 1942 e 1953, e publicado, como de costume, em revistas do gênero, no caso da Fundação, Astounding Magazine, Fundação é considerada pelo critica especializada como romance fundamental para entender o gênero literário sci-fi no séc. XX.

Não há heróis, e sim personagens sagazes que entenderam a importância do plano Seldon e as crises que emergiram com a fragmentação do império, e aqui cabe falar que há todo um paralelo com grandes impérios, e o Romano é o mais notório. E a medida que há os saltos e as crises, é possível fazer mais paralelos, e a passagem mais notável é do Mulo um mutante que consegue ler e influenciar emoções, uma singularidade que não estava prevista no plano Seldon, que podemos sem muito esforço comprar aos grandes ditadores fascistas.Porém Seldon havia criado duas fundações, uma em cada extremo da galáxia. E com surgimento do Mulo há o grande suspense da trama, que é saber a localização da segunda Fundação, já que essa poderia impedir o apetite do Mulo em conquistar toda a galáxia.

Embora o livro não seja datado, e ai reside o gênio de Asimov, é difícil ler a obra sem as imagens que já possuímos dos milhares de filmes do gênero que beberam em sua fonte, e Star Wars é um dos exemplo seguido por vários outros.

E para quem já é familiarizado com a escrita de Asimov, os diálogos da Fundação lembra em muito o livro O enigma dos Viúvas Negras, claro, escrito muito depois da Fundação.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

The Colony

Por Pachá

O crítico literário Frederic Jameson disse certa vez que é mais fácil imaginarmos o fim do mundo do que o fim do capitalismo, e a julgar pela quantidade de filmes que segue esse pensamento, Jameson está sendo certeiro até aqui.

O filme de Tim Fehlbaum é interessante pois fala sobre o planeta Terra e de uma sociedade, elite, interplanetária que conseguiu imigrar, se é que o termo pode ser usado para fronteiras planetárias, quando a Terra se tornou inviável para a vida. O que decorre é que o planeta em que essa elite conseguiu se fixar, Kepler, não está muito a favor de abrigar os terráqueos. Eles tentam voltar pra Terra, mas para isso é preciso saber se o ambiente está favorável a vida. Expedições são montadas para verificar a qualidade do ambiente.

A trama é sob o ponto de vista da astronauta Blake (Nora Arnezeder) que faz parte da segunda equipe enviada para verificar o planeta, a primeira não teve sucesso. 


Sem contar com muitos aparatos dos sci-fi movies, Tides a Colônia está mais para um Mad Max na água, ou seja, um filme pós apocalíptico, sem aprofundamentos científicos ou mesmo filosófico, há breve diálogo do antagonista, Gibson (Iain Glen) embasado no conceito europeu de civilização. As atuações são convincentes e em conjunto com o suspense, garante boa imersão na atmosfera proposta pelo roteiro.

A fotografia é bem carregada em sombras com paleta monocromática e com boas composições, seja em cenas externas ou internas.

Um bom filme que não esconde os poucos recursos, mas compensa em criatividade.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Settlers

 
Por Pachá

Histórias em que o roteiro deixa grande margem para imaginação do espectador, invariavelmente rendem bons filmes, claro desde que, o conjunto, atuação, arte e fotografia façam sua parte. O primeiro longa de Wyatt é imerso naquilo que esconde mais do que mostra, diálogos curtos, atuações precisas e uma trama que prende atenção

O casal Ilsa (Sofia Boutella) e Reza (Jonny Lee Miller) vivem em um lugar inóspito, em um planeta em processo de ocupação. Eles tem uma filha, Remmy (Brooklynn Price). Um certo temor rondam a família, que logo sabemos se tratar de invasores que estão tentando tomar o local. 


Com uma atmosfera pós apocalíptica, nos lembrando que os começos são sempre conturbando quanto os fins, o roteiro trabalha o que seria uma convivência em prol do bem comum. A fazenda que parece abandonada, é uma espécie de oásis em meio a rochas e areia. E seu verdadeiro herdeiro, Jerry (Ismael Cruz Cordova) toma posse, e a despeito dos efeitos colaterais, a vida deve prevalecer. A convivência com Jerry parece facilitar as coisas, já que ele sabe como tirar desse "oásis" tudo que é preciso para sobreviver. A pequena Remmy não se afeiçoa pelo novo "hospede" mesmo ele sendo gentil e cordial com ela. 

Os rostos mais conhecidos são do Transporting Miller e da atriz/dançarina Boutella. As atuações, são o ponto forte, principalmente Ismael, Prince e Nell, já que a personagem de Remmy é que possui o grande arco dramático, pois sabemos tudo sobre ela. E de fato as duas atrizes entregam boas atuações, não há pieguices, drama exagerados. Nell Tiger que teve ótima presença na série To Old to Die Young, está em papel de semelhante introspeção, e se há um afrouxamento de sua atuação, me parece que foi mais pelo roteiro, que entra em contradição quando nos diz a todo instante que o meio está moldando o ser, mas para Remmy que nasceu e cresceu nesse planeta, isso parece não valer.

Settlers esbanja criatividade em um filme de ficção, que em nenhum momento vemos naves ou grandes aparatos high tech como é de costume no gênero, não que isso não importe, importa sim, mas é preciso criar a verossimilhança interna, e isso Settlers cumpre muito bem.



domingo, 31 de outubro de 2021

Cabeça de Nêgo

 
Por Pachá

O estudante Saulo (Lucas Limeira) desencadeia uma ocupação na escola em que estuda após sofrer racismo em sala de aula. Influenciado pelo ativismo dos Panteras Negras Saulo passa a denunciar as péssimas condições da escola, e com isso coloca em alerta as forças de inescrupulosos gestores escolares e políticos igualmente corruptos.

Com uma direção segura e montagem atraente, o primeiro longa de Deo Cardoso capta com certa precisão o vigor juvenil de mudar o mundo, ou ao menos, a escola em que estuda, porque não. E assim se dá a jornada de Saulo que mesmo diante de uma realidade esmagadora e desfavorável, toma conscIência de seu lugar e poder de mudança local, e como tal influência os demais alunos que acreditam que a educação e a escola tem papel fundamental, na formação de uma sociedade melhor e justa.


As atuações são muito bem dosadas em suas cargas dramáticas e conflitos, ainda que contenha diálogos expositivos e didáticos, como por exemplo a cena da reunião de professores, em que os diálogos sofre de certa preguiça, mas não compromete a trama e os eventos. 

Além de trazer a pauta do racismo, o filme também explora a força juvenil quando bem embasada em pleitos legítimos em prol do coletivo. E também a importância da leitura para fugir da alienação e tomada de consciência.

O cinema do Cearence mostra que está em grande fase, com produções de temas diversos mas sempre com poder questionador.




quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Infinitum

 
Por Pachá

Com o marketing de que foi todo filmado com iPhone e durante o lockdown londrino, Infinitum, lembra um episódio de Além da Imaginação. 

Uma mulher (Tori Butler-Hart) acorda em um quarto, presa em uma cadeira, mas já é entregue, pelo cientista (Ian McKellen) que se trata de um experimento envolvendo a física quântica, no qual há uma expansão da consciência e todas as possibilidades possíveis (dimensões paralelas) de solução de um problema. No caso a situação de prisão e sua fuga, e dai, toda vez que a mulher entra em pânico diante de um empasse ou bloqueio da expansão dessas possibilidades, ela retorna para o inicio, ou seja, amarrada a cadeira.


A principio pensamos se tratar de um loop temporal, mas em minha percepção, é uma espécie de labirinto, com infinitas possibilidade de acesso a saída, ocorrendo dentro da consciência da cobaia, e o experimento é justamente explorar essa expansão da consciência, como um jogo, que vamos salvando e aprendendo, decorando, como se passa por determinada fase de grande dificuldade desse jogo.

A atuação de Tori Butler-Hart não fere, mas também não torna o filme mais atraente do ponto e vista dramático, o que é explicado pela falta de direção de elenco, todo processo de planejamento e execução foi a distância, ficando apenas em contato com a atriz, o diretor, que creio ser seu marido.

A fotografia entregue pelo iPhone, não tem grandes apelos de sci-fi atual, e sim com os filmes antigos, o que potencializa atmosfera de filme da série além da imaginação. Eu tenho a impressão que a proposta de fotografia foi exatamente de remeter aos filmes dos anos 60, 70.

No âmbito geral o filme agrada, pelo suspense. 



quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Fantaspoa 2021

Curtas que assisti no festival e que achei bem interessantes, seja do ponto de vista da cinematografia ou de roteiro.


Nada de bom acontece depois dos 30



Nervo



Ano do Gato


Inabitável



It's Match



Malandro de Ouro



terça-feira, 26 de outubro de 2021

Titane

 
Por Pachá

Agraciado com a Palma de Ouro em Cannes 2021 e o escolhido para representar a França no Oscar, Titane tem a mesma premissa do filme anterior, RAW, pauta feminina centrada em como a sociedade vê a mulher, ou seja, como um objeto, posto essa premissa, ao ser mulher é dado cometer atos que fariam a Terra estremecer. 

Desde as primeiras cenas, quando Alexia (Agathe Rousselle) ainda é uma criança a diretora tenta passar a idéia de privação, de conflito pelo espaço em um mundo predominante masculino. Alexia cresce e com ela uma pulsão de morte diante do mundo testosterona, e por ironia, ela é arrastada para esse universo e precisa assumir uma metamorfose a contra gosto, assim como as convenções patriarcal impõe as mulheres o conflito diário. A cena de Vincent (Vincent Lindon) se injetando de anabolizante são emblemáticas nesse sentido, e por outro lado uma manutenção insustentável, quando é mostrado que mesmo os mais "brabos" não conseguem manter essa postura viril, e que as vezes isso é só uma fachada, e o roteiro expõe essa falha na manutenção dessa virilidade.


Agathe Russelle que é quase uma estreante, tem poucas falas, mas grande expressão facial e corporal. Ela traz no peito uma frase de Bukowski, "o amor é um cão dos infernos" e ao final, a mensagem é uma outra frese, de uma música, All you need is love. A percepção é que todos os personagem tem essa carência, de querer ser amado, e que no caso de Alexia toda tentativa de ser amada, mas do jeito dela, desencadeia atos rancorosos.

Titane é um filme forte, o terror contemporâneo, quando escancara os instintos mais animalescos nos lembrando, que o diferente nem sempre é estranho e portanto uma ameaça, mas para os sapiens reina máxima Freudiana, todo estranho é um inimigo.



Legendas PtBr

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Chaos Walking (mundo em caos)

 
Por Pachá

A premissa da trama é de um mundo onde os sons dos pensamentos, ruídos, são materializados, as vezes em imagens. Estrelado por Tom Holland, em um papel que lembra em muito Peter Parker e da Jedi Daisy Ridley, os dois fazem ótima dupla. E o filme empolga, pelas atuações e uma trama bem redonda e sem muitas pretensões.

Outra ótima presença, é do sempre correto, Mads Mikkelsen no papel do vilão, mas fiquei com a sensação de um trabalho pouco atencioso do roteiro para o personagem, no que diz respeito aos conflitos e arco dramático.


O roteiro tem uma história pregressa bem interessante, já que a trama é sobre a terceira geração de colonos habitando um planeta que altera de forma profunda a comunicação das espécies que nele habita. E o roteiro não esconde o fato de se tratar de um filme de puro entretenimento, arranhando algumas questões como superioridade das mulheres, convivência com outras espécies. E claro, o fim da vida no planeta Terra, ou ao menos, a inviabilidade de proliferação dos sapiens no planeta azul.


A fotografia de Ben Seresin que fotografou o ótimo Planos Quase Perfeitos 1999, cria boas composições aproveitando os cenários de floresta.

O mundo em Caos é uma ficção bem executado, com bastante veracidade interna, é que certamente agradará os fãs do gênero.


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Warning

 

Por Pachá

O primeiro longa da diretora Agata Alexander é muito bem conduzido e tem uma trama com visão pessimista do futuro. O roteiro que também é assinado pela diretora, flerta com a imortalidade, relacionamentos, finitude, tudo bem embalado pela fé, in God We Trust.

A estrutura narrativa é fragmentada, tendo apenas como ponto de cruzamento das histórias, uma pane eletrônica no qual o técnico David (Thomas Jane) é o ponto central. As histórias lembram muito black mirror, mas Agata contrói conflitos muito mais aderentes a um futuro próximo, possível e mais sombrio, ao menos foi essa minha percepção.


As atuações são muito boas, Thomas Jane mesmo em um papel limitado, em um monólogo paradoxal, mostra desenvoltura e carisma, alias o personagem lembra muito sua participação na série Expanse. Alice Eve confere o lado cômico da devoção em um futuro no qual a fé abraça a tecnologia, e ai cabe uma espiada no filme de Lucas THX1138. Ruperte Everett protagoniza a história mais cruel, contrapondo mortalidade e imortalidade, sendo esta última um privilégio da elite. As histórias, assim como a série black mirror, lança olhar para o impacto da tecnologia na vida dos sapiens, e claro não muito otimista.

Mesmo não sendo uma obra original, até porque creio ser difícil algo no gênero, Agata tem muita propriedade em se apropriar de temas já explorados em outro filmes de ficção científica. No mais é ficar atento para os futuros trabalhos da diretora.


legendas PtBr